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Pride POPline: LaMona Divine se joga na música, produz EP e abre nova fase na carreira de drag queen

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Ela já apareceu em uma super série da Netflix, esteve em um clipe de uma das artistas mais queridas da “RuPaul’s Drag Race”, posou para grandes fotógrafos, está totalmente mergulhada no mundo da mosa, mas apenas há pouco tempo vem se dedicando à música. A terceira convidada da série de entrevistas da Pride POPline é LaMona Divine!

Com uma música lançada, a drag queen paulista está determinada na produção do seu primeiro EP. Uma música já foi lançada, “Party Girl”, mas ela quer mais! Neste papo, conversamos sobre os desafios, suas inspirações, questão de gênero, planos e, claro, a luta contra o preconceito e espaço.

Foto: Murilo Yamanaka

Oi LaMona! A série da Pride POPline visa a dar visibilidade a vários artistas que não tem espaço na grande mídia então nada mais justo de começar se apresentando para os leitores do portal!
Sou drag queen paulista e faço esse trabalho há quase 5 anos. Minha ideia sempre foi reunir moda, arte e música com o meu trabalho de drag queen, levo para os meus shows coreografias afiadas, com um toque pop e burlesco. Tenho referências que misturam o kistch selvagem de Roger Waters, com a elegância e sensualidade de Thierry Mugler, Jean-Paul Gaultier e Saint Laurent. Eu tive o prazer de ser uma das drag queens convidadas para participar das gravações da série original Netflix “Sense 8”,durante a 20ª edição da Parada LGBTT de São Paulo. Também tive a honra de participar do videoclipe da Alaska Thunderfuck, “Come to Brazil”. Alaska tem uma fama mundial devido a sua participação no famoso reality show RuPaul’s Drag Race, no qual levou a coroa de melhor drag na 2 temporada do All Stars.

Mas como surgiu a LaMona no seu caminho?
A LaMona surgiu no final do ano de 2013. Após eu ter me graduado na faculdade de moda senti um grande vazio criativo no mercado de moda e precisava explorar minha criatividade e toda minha paixão de alguma forma, foi então que depois de assistir e me fascinar com algumas temporadas de “RuPaul’s Drag Race” eu decidi que queria fazer aquilo também. Os figurinos, maquiagem, as performances eram tudo o que eu mais amava fazer. E depois de alguns testes dentro de casa (trancado no banheiro!) comecei a mostrar a LaMona para os amigos e foi me dando a coragem de sair de casa montada e me exibir na baladas.

Ao buscar informações ao seu respeito, achamos interessante que você foi uma das poucas personagens das nossas entrevistas que sinalizou um gênero no Facebook. Foi algo inconsciente ou proposital?
Sim, foi algo proposital porque quando eu criei a LaMona logo eu a identifiquei como uma personagem feminina, que representa uma mulher, porém como drag queen eu acredito que é uma arte além do gênero e percebi que para mim seria mais coerente na época colocar como gênero neutro. Essa questão de gênero no Facebook me incomoda demais porque estou numa batalha de alguns anos para conseguir recuperar meu nome no perfil como LaMona Divine ao invés do nome masculino que consta no RG, porque eu sou conhecido socialmente pelo meu trabalho como LaMona Divine.

Por eu me caracterizar de mulher já tiveram situações de assédio e eu consegui me livrarporque sou um homem vestido de mulher, mas fico imaginando mulheres que passam por isso e não conseguem se defender. E é ai que você percebe aonde o machismo se instala.”

Foto: Divulgação

A gente sabe que por mais a questão de gêneros esteja sendo mais debatido, ainda é tratado como tabu. Para você, o quão difícil é ser reconhecido como profissional?
A barreira da sexualidade ainda é uma das mais difíceis de se quebrar completamente. Ela está sim mais flexível atualmente, porém ainda existe em todas as áreas. Eu felizmente nunca sofri preconceito direto pela arte que eu faço, sempre me respeitaram no meu ambiente de trabalho, mas já ouvi inúmeros relatos de colegas que foram agredidas fisicamente e/ou verbalmente em lugares públicos como baladas e shoppings. Isso me deixa bastante triste porque são artistas e seres humanos apenas querendo mostrar o seu trabalho. Porém, por eu me caracterizar de mulher e muitas vezes de uma forma mais provocativa já tiveram algumas situações de assédio vindo de homens sis heteros e inclusive homossexuais, e eu consegui me livrar das situações porque sou um homem vestido de mulher, mas fico imaginando as mulheres que passam por isso involuntariamente quase todos os dias na sociedade e não conseguem se defender. E é ai que você percebe aonde o machismo se instala. Então não podemos aceitar nada disso, não podemos ficar calados quando presenciamos uma pessoa sendo assediada ou agredida.

Você tem alguns anos de carreira drag, mas não foi há muito tempo que se virou para a música. Como você chegou até a música como um meio para a divulgação da sua arte drag?
Sempre tive uma paixão pelos palcos, de dançar, de fazer show e assistir shows… é algo que corre nas minhas veias. Porém lançar uma música na qual eu estou cantando me parecia algo distante, quase impossível. Mas foi quando eu tive problemas com direitos autorais por divulgar os vídeos dos meus shows (dublando divas pop) que eu me deparei com a seguinte questão: ou você vai enfrentar estes problemas para sempre e não vai ter visibilidade com sua arte ou você vai criar seu próprio material e ralar para divulgá-lo. Bom, a última opção me pareceu mais excitante e foi assim como começou. E esta decisão só me trouxe mais inspiração para o meu trabalho.

Falando em dublagem de divas pop, no seu canal tem um vídeo cantando Lady Gaga. A gente pode dizer que é uma das suas influências?
Com certeza absoluta! Lembro que quando eu comecei eu tinha centenas de imagens da Gaga como referências para criar os looks para a minha personagem e já fiz várias performances com as músicas dela. Ela é um ícone e seu trabalho é muito inspirador para mim.

Que outro artista você gostaria de se vestir para um especial?
Madonna é outra artista que inspira demais o meu trabalho, também já performei diversas músicas dela, assim como a Britney Spears que me introduziu ao universo da dança há muitos anos atrás.

Quem mais está nessa lista de inspirações?
Esta lista é gigante mas vou pontuar as minhas inspirações diretas. Tem a rapper Brooke Candy (que eu tive o prazer de conhecê-la durante seu show recente em SP), a CatWoman interpretada pela Michelle Pfeiffer, a Barbarella (Jane Fonda) é um exemplo de sensualidade e feminilidade para mim, e as personagens Velma Kelly e Roxie Hart ambas do filme musical “Chicago” e por último mas não menos importante temos a icônica drag queen dos anos 80’s: Divine que carinhosamente eu batizei a minha personagem com este sobrenome e porque também eu criei uma história sobre a LaMona ser a filha abandonada da Divine.

Ano passado você lançou “Party Girl”, com produção de Nelson D (que trabalhou com Gloria Groove e Banda Uó). Como está sendo sua experiência fazendo um trabalho de música inédita, primeira vez em estúdio?
Para mim tem sido algo louco, jamais imaginei que eu lançaria uma música e que estaria disponível para todas as pessoas em qualquer lugar a qualquer momento. Por mais que eu tenha lançado “Party Girl” sem pretensão alguma, apenas como uma forma de divulgar meu trabalho, eu me impressionei pelo retorno positivo. Foi melhor do que eu imaginei na verdade e por isso vamos trabalhar melhor a música. “Party Girl” foi como um presente para mim, ter o Nelson D trabalhando nesta música comigo foi uma honra porque eu admiro demais o trabalho dele.

Algumas pessoas que acompanham sua carreira esperavam um clipe para “Party Girl” e você chegou a lançar um lyric-video que praticamente é um clipe (rs). Tem sonhos de fazer um clipe propriamente dito? 
Eu escrevi essa música imaginando o vídeo clipe para ela, então ele PRECISA acontecer rs. Eu e o diretor do clipe estamos correndo atrás de patrocínios para conseguir fazer um trabalho bacana, eu sou muito perfeccionista com o meu trabalho, então o clipe está demorando um pouco para vir, mas quando for lançado será maravilhoso, acredite. O pouco que posso dizer desse vídeo é que a estética é bastante plástica, artificial, exagerado, bastante colorido e com looks babadeiros.

Há mais novidades vindo por aí? Algo que você pode adiantar para este ano?
Sim, muitas novidades, estou trabalhando no meu primeiro EP, que será lançado nos próximos meses e eu estou bastante ansioso para mostrar tudo que estamos criando.

O EP “Venus Digital” está sendo criado com a ajuda dos fãs via financiamento coletivo

Quais são seus planos para o futuro? Pensa nisso ou deixa rolar?
Eu sempre gosto de pensar em um passo de cada vez porque sou uma pessoa bastante ansiosa, então digamos que para o futuro quero fazer bastante shows e divulgar minha arte para todo o Brasil. No últimos dois anos a gente viu uma abertura maior da massa brasileira para a cena LGBTQ com personagens expoentes na música, no teatro, nas artes em geral.

A gente está perguntando para todos os entrevistados: para dar uma continuidade nessa corrente positiva de novas drag queens cantoras no Brasil, qual nome ainda não tão conhecido pelo público que você acha que vai se destacar em 2018?
Eu fico bastante feliz e orgulhoso em ver como nós LGBTQ estamos crescendo e conseguindo mostrar nosso trabalho para grande massa. Ainda não mostramos 100% das coisas maravilhosas que produzimos mas aos poucos estamos abrindo estas portas. 2018 é um ano de muitas possibilidades e acredito que algumas manas vão conseguir um destaque maior neste ano e já começo indicando os trabalhos incríveis da BUTANTAN, minha amada Kaya Conky, a querida Mia Badgyal, e claro a LaMona Divine! (risos)

Qual é seu conselho para outros meninos que, assim como você, viu em drags uma inspiração?
Drag para mim é uma terapia, é um exercício de empoderamento, me tira da zona de conforto e me faz enfrentar o mundo de uma maneira mais corajosa e poderosa. Portanto minha dica para quem está começando é identifique o que você mais gosta no mundo drag e faça o seu trabalho com muito amor e verdade consigo mesmo, dê tempo ao tempo para conseguir chegar numa estética que te satisfaça, nunca parte de treinar e testar, e principalmente nunca se esqueça o motivo pelo qual você começou a fazer drag, isso vai te ajudar a trilhar o seu caminho!

Foto: Leo Fagherazzi

Muito obrigada, LaMona pelo nosso papo! Sucesso!
Muito obrigada POPline! <3

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É Hoje! Pabllo Vittar e Lexa comandam nosso trio com a Buser na Parada LGBTI+ do RJ!

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Em poucas horas, a Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, será tomada pelas cores da diversidade! É a vigésima-quarta edição da Parada LGBTI+ da cidade maravilhosa. Este ano, nos unimos a Buser e vamos levar duas grandes estrelas pop para o nosso trio: Pabllo Vittar e Lexa! Além delas, os DJs Pedro Myguel e Fernanda Fox comandam o público. A concentração começa a partir das 11h na altura do Posto 5. Acompanhe nossos Stories no Instagram para não perder nada!

Em estrada com a turnê “Não Para Não”, Pabllo não mediu esforços para participar do evento. A drag saiu do palco do show em Curitiba direto para o aeroporto – pegou o primeiro vôo para o Rio. Lexa também está se esforçando para prestigiar o evento: ela enfrenta três conexões para chegar de São Luis, onde fez show ontem, à tempo. As apresentações vão acontecer ao longo do desfile à tarde. Não perca!

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Buser e POPline levam Pabllo Vittar e Lexa para a 24° Parada do Orgulho LGBTQI+ do Rio de Janeiro

Saiba detalhes!

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A 24° Parada do Orgulho LGBTQI+ do Rio de Janeiro acontecerá no próximo 22 de setembro e o POPline está lá de maneira super especial! Em parceria com o Buser, plataforma online de fretamento colaborativo de ônibus, vamos levar Pabllo Vittar e Lexa para shows super especiais, com muitos hits, ousadia e diversidade! A concentração começa a partir das 11h, na altura do Posto 5, na Praia de Copacabana.

A Parada LGBTI+ Rio é organizada pela ONG Grupo Arco-íris de Cidadania LGBT. O evento fará referência aos 50 anos da Revolta de Stonewall e marca os 40 anos do movimento LGBT no Brasil. De acordo com a organização, a expectativa é reunir mais de 1 milhão de pessoas. Além das atrações artísticas, a Parada LGBTI+ Rio 2019 trará ações importantes de prevenção a doenças sexualmente transmissíveis, além de distribuição de materiais informativo sobre cidadania e direitos LGBTI.

O Buser está forte na campanha “A Buser Conecta Você a Sua Tribo”, que levanta a bandeira do respeito e a tolerância nas estradas brasileiras. “Na Buser celebramos a diversidade, o respeito e apoiamos essas causas como parte da nossa cultura. O público LGBTQI+ é um dos primeiros a utilizarem os nossos serviços. Quando iniciamos em 2017, os primeiros ônibus a lotarem eram feitos para realizar viagens em direção às Paradas. Fizemos questão de homenagear esse grupo que sempre esteve tão próximo de nós”, explica Fátima Bana, diretora de marketing do aplicativo.

O POPline tem o público LGBTQI+ como leitores assíduos e sempre dá muito atenção à causa! “Estamos muito animados com essa parceria! A Parada LGBTQI+ do Rio de Janeiro é um grande símbolo de resistência. É muito importante para o POPline usar sua voz e influência para o movimento, principalmente por ter uma audiência tão jovem com a opinião em construção. A Buser está conectando o Brasil de uma forma inovadora e única, assim como o POPline conecta os fãs e os artistas. Domingo será um dia inesquecível!”, afirmou Flávio Saturnino, CEO do site.

Segundo o presidente da ONG, Almir França, o evento serve para comemorar os direitos e avanços conquistados. “Iremos para a avenida mostrando nossa história. Dia 22, estaremos nos afirmando como seres humanos, mesmo diante de um quadro retroativo na área dos direitos humanos. Temos muito o que fazer e não deixaremos de lutar nunca”, finalizou.

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Pride POPline: conheça Caio Dias, o cantor que quer ajudar a quebrar os estereótipos e levantar a bandeira da pluralidade

Em seu mais recente trabalho, “Resistência”, Caio choca os dois mundos que conhecemos e levanta a questão da liberdade em sua total integridade. Conheça mais sobre o artista no nosso papo.

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A série de entrevistas da Pride POPline se encerra neste sábado com o único personagem até agora com uma narrativa um pouco diferente do que vimos até aqui. Se até então entrevistamos artistas que viram na arte drag o caminho para trilhar na música, hoje nosso foco está em Caio Dias. Esse mineiro de 28 anos também tem na cena LGBT um meio de expressar seus sentimentos e uma bandeira a ser erguida com orgulho, mas tem um outro mote.  “Vejo as mulheres pioneiras nesse movimento de libertação do corpo”, diz ao POPline ao assumir para si parte da militância de expressão também do homem homossexual.

Em seu mais recente trabalho, “Resistência”, Caio choca os dois mundos que conhecemos e levanta a questão da liberdade em sua total integridade. Conheça mais sobre o artista no nosso papo abaixo:

Foto: Caio Dias (centro), clipe “Resistência” por Alexandre Borges

Oi Caio, a gente sempre começa as entrevistas da Pride POPline pedindo que o entrevistado se apresente! Conte mais sobre você.
Olá, Popline! Primeiramente, agradeço imensamente esse espaço! Para mim e tantos outros artistas em início de carreira ele é fundamental. Obrigadão mesmo, de coração. Bem, sou Caio Dias. Tenho 28 anos, natural de Belo Horizonte. Pisciano com ascendente em leão (e lua também), o que é ótimo, porque correria o risco de eu só chorar (haha), me equilibra. Comecei a cantar aos 12 anos de idade, na igreja evangélica (minha família é toda adepta a essa crença). Me formei em comunicação social, habilitado em Publicidade e Propaganda e, durante a faculdade, iniciei minha profissionalização artística, há 6 anos. Foi em 2012 que lancei meu primeiro trabalho autoral na internet. Sou musicalmente curioso, intimamente reservado e socialmente extrovertido. Amo estar com meus amigos e o público (leão), mas também sou apaixonado por estar sozinho em casa (peixes). Individualidade é muito importante pra mim, boas amizades também. Adoro astrologia, arrisco jogar tarô, sou terapeuta não remunerado dazamiga (kkk) e música é meu combustível (nem televisão tenho, por exemplo). É isso, basicamente. Ah, e sou solteiro (leia o emoji da carinha de lua aqui haha), há 2 anos.

Você tem influências em vários estilos musicais. Como elas conversam entre si para a sua formação artística?
Verdade! E pensar que tudo começou com os louvores da igreja (hallelu!). Criança não tem escolha, né? Fazem o que os pais mandam. Então entrei para o grupo de jovens, na sequência, na equipe de música e de dança. Essa foi uma forte influência (que me ensinou disciplina vocal e interpretação, presença). E outras duas bem fortes foram: primeira – meu pai tocava percussão em uma banda de pagode, nas pizzarias de BH (o que me fez apaixonar por musicalidade brasileira) e, segunda – eu ouvia muitos barulhos em casa, durante a madrugada. Morria de medo de ficar sozinho, daí ligava a televisão (no programa do Zé do Caixão, vai entender) e, para pegar no sono, deixava um radiozinho de pilha tocar até adormecer. Adorava dormir ouvindo programas de rádio variados. Isso foi provocando em mim um gosto muito eclético que, mais tarde, eu traria para as minhas composições. Essa mistura me despertou a vontade de experimentar muitas possibilidades na música. Tanto que, atualmente, minha definição para estilo pop é a seguinte: pop é o que toca a gente no momento certo, com as palavras certas, no ritmo que mais nos cativa. É o seu radiozinho da madrugada (haha).

Foto: George Lucas/Divulgação

“Não faz muito sentido para mim assumir um papel de formador de opinião e fingir que nada está acontecendo”.

Em uma de suas falas na divulgação do seu trabalho, você diz que “sente falta de artistas masculinos esteticamente provocativos e sensuais com seus próprios corpos”. Por que fala isso?
Me recordo de um comportamento na infância que traduz um pouco minha visão sobre essa fala. Eu dava duas dobras nas minhas bermudas, na cintura, para elas parecerem mais curtas. Eu brincava com as minhas primas e queria andar parecido com elas. Sei lá, me sentia mais à vontade assim. Mas era muito reprimido por minha mãe, porque, segundo ela “homem não usa roupa curta”. Inclusive, em um acesso de raiva, ela deu para a minha prima uma blusa rosa de estampa de frutinhas que eu amava (R.I.P. brusinha). E essa ideia martelava na minha cabeça: por que meninos não podem usar roupas assim também? Fui descobrindo a razão aos poucos, através do bullying, quando era chamado de “bichinha” e “veadinho”. Mas na minha cabeça, deveríamos usar o que quiséssemos.

Me tornei adulto, aprofundei meus estudos sobre comportamento humano e antropologia durante a faculdade, sou muito questionador. E sou muito a favor de um corpo livre, sabe? Desde a idade média vivemos uma repressão contínua ao corpo, à sexualidade, à nudez, que foi agravada com a inquisição. É como se o simples fato de mostrar nossa pele fosse errado. Vejo as mulheres pioneiras nesse movimento de libertação do corpo. Antes objetificadas sexualmente, hoje conseguiram (e conseguem) mostrar à sociedade que as regras sobre si só dizem respeito a elas mesmas, cada vez mais. Claro, ainda há muito o que evoluir, mas importantes passos foram dados. Ser provocativo, sensual, portanto, ao meu ver, é um posicionamento de se empoderar. Fazer suas regras. Dizer que o corpo é seu e dane-se. Sinto associações muito pejorativas ainda, quando falamos sobre a exposição do corpo masculino, seja usando roupas justas ou curtas. “Ele tá parecendo uma mulher”, dizem. E qual o problema? Desde quando é ruim parecer uma mulher? E quem criou as regras do que é “coisa de mulher” e “coisa de homem”? Preciso me estereotipar com tal “código social de gênero” para ganhar direito a tal comportamento, tal vestimenta? Não tenhamos vergonha dos nossos corpos, independente da nossa identidade de gênero. É o que penso.

Até então aqui na Pride POPline a gente conversou com muitas drag queens cantoras que estão buscando seu espaço ao sol. Como você vê o meio em que está inserido em termos de preconceitos com homens assumidamente homossexuais?
Olha, tem uma coisa que já entendi: se você cruzar a linha do “lugar comum social”, você é crucificado, literalmente. Não importa muito sua apresentação, sabe? Seja ela Drag, Queer, Afeminada, Cis, Trans.. Se você desafia os padrões pré-estabelecidos, tão arraigados em dogmas religiosos intolerantes, você cai na “caçamba da intolerância”, apesar de sabermos que nem todo grupo sofre as mesmas coisas. Te olham torto, fazem chacota, fazem piada. Alegam desperdício, te julgam despudorado, te condenam ao inferno. Enfim, fazem o que dão conta, o que aprenderam (como diz uma amiga psicóloga de Goiânia). Por isso a importância de termos cada vez mais representantes das diferenças nas artes. Somos muitos! Somos plurais! Somos, apenas. Todos parte de um mesmo núcleo, que merece ser percebido e acolhido. Somente a união de propósitos e a diversificação crescente de representatividade será capaz de nos reposicionar, nos tornando totalmente comuns aos olhares sociais, porque é o que somos, de fato. Não temos nada em especial, melhor ou pior que os demais, somos iguais.

Fala pra gente sobre o trabalho em “Resistência”.
Bem, estava eu de boa na lagoa com minha solteirice e lá veio um boy surgir na minha vida para me desestruturar psicologicamente (socoooooorro kkk). Passado esse momento de quase loucura que vivi, chamado paixão, refleti sobre todas as vezes que me permiti ser invadido emocionalmente e sofri com isso. Todas as vezes que acreditei em promessas (nas minhas ilusórias e nas dos demais) e arquei com consequências indesejadas. Lembrei de histórias de amigos, dos meus pais (que viviam uma relação bem abusiva) e de tantos outros relatos acumulados até então. Me atentei ao fato do poder do não, de se blindar contra tudo aquilo que perdeu o sentido e que insistimos em alimentar. Confesso que me senti orgulhoso em conseguir sair bem dessa cilada de satanás. E assim nasceu Resistência: um basta às relações abusivas. Composta, procurei o Blak, um produtor daqui de São Paulo que manda muito em rap e black music em geral, porque eu queria uma pegada trap (Blak, te amo, cara). E assim nasceu essa musiquita.

E o clipe? Você convidou amigos e seguidores para formar a equipe, correto?
Foi! Olha, digo uma coisa a vocês. Se existe louco, é porque tem plateia… hahaha. Com a música pronta, fiz um convite no Instagram para os seguidores interessados em participar da filmagem do clipe. Para minha surpresa, houve um grande interesse por parte deles e gravamos algumas semanas depois, às seis da manhã (nossa, eles foram muito parceiros, viu!!) na Praça Pôr do Sol, em São Paulo. Fiquei muito feliz.

A mensagem do clipe é bem clara! Como foi a concepção do roteiro e conceito?
Eu amo escrever. Sempre que componho uma música, geralmente me ocorre a ideia do vídeo. Resistência me remeteu fortemente uma alusão ao bloqueio militar. Discuti a ideia com a Bia Tomielo (minha graaaaaande amiga. Falei que é uma grande amiga?) que me acompanha nos clipes desde o comecinho. Ela gostou, fez umas ponderações, colhemos as sugestões de outras pessoas próximas (coisa que gosto muito de fazer, ouvir essas opiniões de fora) e estruturamos tudo. Ela é de capricórnio, sabe? Então ocorre tudo bem organizado hahaha. Que bom.

E também soubemos que todos estão dentro da comunidade LGBT. Por que foi importante para você esse aspecto da produção?
Sim! Poxa, porque nós temos voz! Porque nós amamos, nós sofremos, nós somos felizes, nós terminamos relações e voltamos. Nós temos emoções. Um posicionamento que busco tratar fortemente com o meu trabalho é a normalidade: sim, ser um LGBTQI é normalíssimo. Me irritava profundamente (e ainda irrita) pessoas alheias, heterossexuais, que nos resumem a um ato sexual! Como se só fizéssemos sexo, mais nada (ódio!). Então, somos personagens sociais como qualquer um. Acho sempre válido reforçar.

“Quem criou as regras do que é “coisa de mulher” e “coisa de homem”? Preciso me estereotipar com tal “código social de gênero” para ganhar direito a tal comportamento, tal vestimenta? Não tenhamos vergonha dos nossos corpos, independente da nossa identidade de gênero.

Caio Dias (centro) e os dançarinos Daniel Anjos e Wellington Santana (da dir. para esq.) na Feira Cultural LGBT/SP. Foto: Alexandre Borges/Divulgação

Cada vez mais vemos os artistas de dentro da comunidade LGBT usando a música para se posicionar politicamente e deixar bem na cara mesmo de todos que há um sofrimento de diminuição, preconceito, de morte… Para você, o quão é importante a arte nesse discurso?
Se há uma frase que gosto é a seguinte: a música alcança onde as palavras não chegam. A arte é indispensável! Porque se nós cantamos, produzimos clipes, eventos, feiras, fóruns, discussões sociais e tudo o que for possível a respeito da nossa comunidade, mostramos nossa presença e existência. Se existimos, merecemos atenção e direitos iguais. Se exaltamos quem somos, a vergonha recua, o medo desaparece e a coragem assume as rédeas. Encorajamos aos demais a seguirem firmes e juntos chegamos muito mais longe nas conquistas dos nossos direitos. Carecemos de modelos. De bons modelos. A arte é capaz de gerar bons espelhos de inspiração.

Você enxerga que tem um papel nessa “militância” ou não encara com tanta seriedade assim?
Enxergo totalmente! Assim como milito! Não faz muito sentido para mim assumir um papel de formador de opinião e fingir que nada está acontecendo. Como citei anteriormente, meu anseio é ser mais uma das diversas vozes plurais que somos. Cada uma com sua abertura e potencial de alcance, mas portando uma mesma mensagem de inclusão e respeito. Carrego essa causa no meu trabalho, posicionamento e discurso, até porque, é o que sou. Sendo o que sou, também sou um grande interessado em melhores condições sociais e cíveis para mim e todos os nossos.

Ano passado você lançou um EP com quatro faixas, o “Funk Tropical”. Este ano, “Resistência” é um novo single de apresentação ou fará parte de um novo projeto?
Sim! Funk Tropical foi um experimento. Tanto que nem divulguei muito ele. Eu estava entendendo o que eu gostaria de propor, de fato. Foi uma experiência maravilhosa. Resistência faz parte do EP que lanço na primeira quinzena de julho, intitulado Caio Dias. É nossa largada. Tem muita coisa bacana nesse projeto novo. Me sinto realizado por ter conseguido criar algo ecleticamente pop, tal como eu me sinto (radiozinho de pilha, obrigado haha). Espero que vocês gostem dessas 5 faixas inéditas que estão chegando.

A gente está perguntando para todos os entrevistados: para dar uma continuidade nessa corrente positiva de novas drag queens cantoras no Brasil, qual nome ainda não tão conhecido pelo público que você acha que vai se destacar em 2018?
Olha, tenho acompanhado bons trabalhos de drags e artistas trans também. A Frimes tem uma proposta muito própria, me impactou positivamente. Adorei. Creio ser um nome para se atentar. E entre artistas trans, acredito que a MC Xuxu tem muita coisa boa para nos mostrar também.

Foi um imenso prazer, POPline! Obrigadão, mais uma vez.

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