Foto: Arquivo Pessoal
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Pandemia e “novas estéticas”

Que tá todo mundo cansado de falar de pandemia, isso não é muito segredo para ninguém. Mas uma discussão que gostaria de levantar é sobre as “novas” estéticas que se destacam nesses tempos pandêmicos.

Mesmo com todas as dificuldades impostas pelo isolamento, os artistas e criadores têm encontrado diferentes alternativas para driblar os impedimentos e colocar suas ideias no mundo. E, consumindo, observando, comparando e questionando muitas destas produções criadas durante a pandemia, escrevi esse pequeno ensaio. Te convido pra passear nas minhas divagações e também a compartilhar comigo os caminhos pelos quais sua mente tem te levado nesse período. Vamos nessa?

Temos visto e nos acostumado com novos “padrões” no audiovisual: talk shows com entrevistas por zoom, noticiários com repórteres fazendo links ao vivo por vídeo chamada telefônica, shows musicais que têm como cenário o próprio lar dos artistas, videoclipes com membros de bandas gravando suas partes separadamente direto de seus confinamentos… Enfim, esses são alguns exemplos das realidades mais frequentes aos nossos olhos. O surreal nisso tudo é talvez pensar que muitos artistas independentes já se utilizavam desses mesmos recursos e muito raramente eram aclamados por isso. O que era a dura realidade para uns, agora virou hype para os artistas do mainstream?

O que explica isso? Talvez o fator “inusitado”, o “inesperado”? A quebra do padrão chama a atenção e parece haver algo mágico nessa possibilidade de poder enxergar um pouco do que seria o dia-a-dia de quem a gente não tem um acesso tão fácil. O fator empatia? A vulnerabilidade? Todo mundo “no mesmo barco”, passando pelo mesmo momento? (embora a gente saiba que esse barco tenha um quê de Titanic, com separações bem gritantes entre quem tá na primeira classe e os outros passageiros).

No final, minha dúvida é: será que essa tendência abre espaço ou dificulta ainda mais a vida dos artistas com menos recursos?

Além desta “caseiridade”, outra linha estética que têm ganhado espaço nas produções é aquela em que a realidade abre espaço para fantasia, seja por meio de recursos tecnológicos avançados ou pela evocação da vibe dos sonhos (ou mesmo pesadelos).

Já era de se esperar, não é? Afinal, em um mundo em que o único espaço seguro (às vezes nem tanto) é a nossa casa, passamos a explorar espaços imaginários, virtuais, na tentativa de ocupar novos territórios e sonhar com um mundo e realidades diferentes. Mas, mesmo essa realidade fantasiosa, não é novidade.

Em outras áreas artísticas, algumas correntes existentes há muitas décadas, trazem elementos míticos, folclóricos e oníricos combinados à realidade para criar histṍrias nas quais os personagens podem viajar entre tempo e espaço, mesclando realidade e fantasia. Obras como: Cem Anos de Solidão (Gabriel Garcia Marques) e as pinturas de Frida Kahlo são bons exemplos.

Elas, inclusive, fazem parte de uma corrente denominada “Realismo Mágico”. Conhecida por reunir artistas latino-americanos que buscavam criar alternativas de expressão nas quais o imaginário livre pudesse ocupar espaços cerceados por diversos fatores como: dominação por padrões culturais europeus, colonizações, regimes ditatoriais ou mesmo a imposição de confinamento por razões de saúde, como no caso de Frida. Você consegue enxergar alguma relação com o que a gente vive hoje?

Em que nível será que estamos realmente criando algo novo ou apenas revisitando/remixando estéticas já propostas por artistas de outras épocas? Estariam estxs artistas destas correntes também revisitando outras épocas? Será que realmente nada se cria, tudo se copia?

É claro que este é um assunto complexo demais pra gente tentar dar conta neste texto aqui, mas é interessante também revisitar (olha eu também revisitando!) quem já tem falado sobre isso, para ampliar esta conversa.

Na área das mídias, por exemplo, dois caras chamados Bolter e Grusin também revisitaram esse papo lá pelos anos 90, quando cunharam o termo “Remidiação”. Eles chegaram a este conceito ao levantar a discussão sobre novas mídias serem “versões mais avançadas” de mídias pré-existentes (ex: jornal >> rádio >> televisão >> internet).

Hoje eu já arriscaria até ir um pouco mais longe e dizer que vivemos não só uma constante remediação, como também um total emaranhado entre as mídias. Nesse sentido dá para citar o caso dos avanços alcançados pela televisão. A TV se tornou muito mais “smart” quando as pessoas por trás dela perceberam que a internet poderia ser uma aliada. Muitos são os programas pelos quais as audiências se reconectaram com o hábito de assistir TV justamente pela possibilidade da participação ativa por uma segunda tela.

No meio dessa discussão toda, há uma pergunta que pode rondar (e às vezes assombrar) o imaginário de muitos artistas e profissionais da música: nessa enxurrada de produções originadas durante a pandemia, como concorrer e garantir um lugar ao sol com as minhas criações/produções/campanhas? Basta acertar a estética? Basta estar antenado com tudo que rola de mídias novas e integrações delas?

Talvez seja preciso nos desprendermos um pouco de padrões, métricas, tendências nas mídias, e libertar nosso pensamento para que possamos voar mais longe e levar mais gente com a gente nessa viagem. Isso não significa, necessariamente, que não devemos revisitar, remixar ou remidiar o que já veio antes.

Aliás, criar repertório pesquisando artistas, movimentos, tecnologias e pensamentos de outras épocas pode ser um exercício bem interessante para o início de um novo planejamento. Ler, ouvir, conversar, assistir são verbos que podem ser somados ao “criar”. Essas práticas podem nos auxiliar, não só a conectar pontos (presente, passado, futuro, culturas, emoções, mídias, etc) como dar aquela forcinha extra naqueles momentos em que estamos cansados da companhia da solidão.

Que tal agora, então, “desconfinar” do celular (ou continuar com ele e usá-lo de outras formas) e descolonizar nosso imaginário? #Partiu conhecer outros mundos, com outros hábitos, que podem nos fazer viajar sem mesmo precisar sair de casa?

Eu, particularmente, perdi um pouco minha capacidade de ler durante a pandemia (coisa que eu adorava e tinha muita facilidade). Mas, confesso que não perdi minha curiosidade (risos) e tenho tentado fazer dela uma energia propulsora para voltar a ler mais. Vou, inclusive, adorar se você me indicar uma leitura (livro, newsletter, artigo) que te motivou, interessou ou intrigou nos últimos tempos.

Bora usar as mídias sociais também para essas trocas de ideias?

Renata Gomes é Publicitária, mestre em Comunicação, Cultura e Mídia e atua há mais de uma década como docente universitária e gestora/consultora de comunicação e marketing, desenvolvendo estratégias para marcas, startups, artistas e eventos das áreas de música e tecnologia. Atualmente integra o time de Marketing & Comunicação da multinacional Ingrooves (distribuidora digital musical). No Instagram dá pra achá-la em @renatagomes78

Escrito por Redação POPLine

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