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Leonardo Torres

Coluna do Leonardo Torres: artistas (não) têm obrigação de ser simpáticos

Espera-se (e pressupõe-se) disponibilidade dos artistas, independente do que se passe na vida deles.

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Imagine a seguinte cena: você está passeando e avista um artista de quem gosta muito. Aproxima-se e pede para tirar uma foto. Ele diz não. Ou te ignora e segue seu caminho. Chato, né? Imagine, então, outra cena: seu maior ídolo está na sua cidade e você faz de tudo para conseguir conhecê-lo. Passa o dia na rua, de hotel em hotel, restaurante em restaurante, ponto turístico em ponto turístico, caçando-o. Você finalmente o encontra! Mas os guarda-costas dele gritam contigo e o próprio artista pede que você o deixe em paz. Como você lida?

Não há como negar: é uma decepção. A gente ouve as músicas, as ressignifica dentro de nossa vivência, vê e revê os clipes, junta dinheiro para ir ao show, defende o artista das críticas dos haters, cria amigos por conta do ídolo em comum… e o que era para ser uma realização vira uma tristeza. Já passei por isso, sei como é. Fãs de Justin Bieber, Demi Lovato, Miley Cyrus, Anitta, Anahí, Dulce Maria, Paramore, Hilary Duff, Maluma, Maroon 5 e Avril Lavigne também sabem. São só alguns dos nomes que me lembro de terem sido antipáticos pelo menos uma vez.

Exemplos:

Recentemente, Shawn Mendes esteve no Brasil e noticiaram que ele “deu show de antipatia” em uma academia em São Paulo. Motivo: não quis tirar foto com ninguém. Queria malhar. Dias depois, o cantor cancelou um show por estar doente. Ninguém é legal doente, sabe? Ou melhor, quase ninguém, porque a apresentadora Maísa já tirou foto com fã na emergência da pediatria. Também já vi Wanessa Camargo dando um monte de autógrafos com febre e tosse. Mas isso deve ser admirável, não regra. A questão é: espera-se (e pressupõe-se) disponibilidade dos artistas, independente do que se passe na vida deles.

Mas os ídolos realmente devem isso ao público? É totalmente compreensível que o encontro com o artista seja um momento especial e a realização de um sonho para o fã. Mas a verdade é que, na maior parte das vezes, aquele é só mais um momento estressante da vida do artista – correndo para cumprir sua agenda atribulada. Seja no aeroporto, com hora para o voo; seja no camarim, com um ou mais shows para realizar naquela noite; seja na saída do show, doido para chegar no hotel e dormir porque o dia seguinte será cheio de trabalho. Ninguém tem bom humor o tempo todo. A maioria, eu acredito, tenta corresponder e não decepcionar as expectativas dos fãs. Mas ninguém vai conseguir isso o tempo todo (Ivete Sangalo, talvez). Já vimos Demi Lovato dizendo “não me toque” para uma fã, mas também já vimos Demi descendo de seu quarto para brincar com fãs na porta do hotel. Já vimos Justin Bieber gritando com fã porque queria fazer suas pichações em paz (haha), e também já vimos o Justin Bieber deitando-se no chão na rua para conversar e dar comida para moradores de rua. Artistas também têm problemas pessoais (às vezes psicológicos e psiquiátricos) e, como todo mundo, dias melhores e dias piores. Até o Papa perdeu a paciência com uma fiel, veja bem. O Papa!

“Ah, mas eles são ricos porque nós compramos seus ingressos e suas músicas. O mínimo que podem fazer é serem simpáticos”. Er… não. Como qualquer serviço ou transação comercial, a troca aqui é clara. O cantor deve entregar o melhor show possível para quem comprou o ingresso e as melhores músicas para quem adquiriu seu álbum. Não há bônus intrínsecos nesta relação. Veja bem: não estou defendendo a antipatia. Todos nós gostamos de pessoas simpáticas e atenciosas. Provavelmente, a gente vai gostar ainda mais de um popstar se ele for legal pra caramba, como Lady Gaga, Taylor Swift, P!nk, Camila Cabello e Adele. Mas ninguém tem obrigação de sê-lo. A simpatia agrega um valor, claro. É, sim, um plus. Se for inteligente, o artista vai se esforçar para parecer o mais legal possível, porque comportamento ruim gera mídia negativa e prejudica os negócios. Na melhor das hipóteses, conseguirá se blindar para não ter que lidar com o assédio, como fazem Madonna e Beyoncé. Você não vê fãs tendo acesso a elas. Dessa maneira, as cantoras não precisam dizer “não” nem fingir interesse por qualquer conversa fiada. Não viram notícia como Shawn Mendes na academia. Não consigo imaginar Picasso ou Van Gogh tendo que ser legal com ninguém. Não eram.

É legítimo se aproximar de um artista e ficar chateado porque não foi bem tratado – ou tratado como esperava. Mas achar que a pessoa, antes amada, é um monstro por causa disso pode ser equivocado. Primeiro que uma atitude, um dia, não define uma pessoa. Segundo que ninguém deve nada a ninguém (a não ser que, de fato, o fã tenha pagado por aquilo, como em um Meet & Greet). Eu aprendi a separar as coisas uma vez que me senti muito maltratado por uma cantora de quem era fã, antes do show. Eu quase desisti de assistir à apresentação. Mas eu tinha esperando tanto tempo para ouvir aquelas músicas ao vivo! Fui com ódio, mas fui. E foi um showzão. Anos depois, reencontrei a mesma pessoa, em outro contexto, outro mood, e ela foi simpática e fofa. A má impressão da primeira vez podia ser resultado de um mal dia, uma fase ruim, uma patologia, vai saber.

Qual sua opinião sobre o assunto? Conte-me: @falaleonardo.

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Leonardo Torres

Coluna do Leonardo Torres: quais artistas pop fazem mais falta na cena atual?

Tem gente sem lançar nada e sem fazer show há muito tempo.

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Se você tem acompanhado essa coluna, já sabe que não me identifico com o que está nas paradas atualmente e que ando saudosista de uma música pop mais relevante culturalmente. Eu tinha esperanças com o lançamento do Justin Bieber, mas o que foi aquilo? Não conheço ninguém que tenha gostado verdadeiramente do “Changes”. As músicas do Justin Timberlake para o “Trolls 2” também não fizeram cosquinha. Eu simpatizei com “The Other Side”, com a SZA, mas ao mesmo tempo ela me parece uma música preguiçosa. Nunca mais botei para tocar.

Justin Timberlake faz falta. Entre os álbuns “FutureSex/LoveSounds”, que vendeu dez milhões de cópias, e o “The 20/20 Experience”, se passaram mais de seis anos. E o que todo mundo pedia era “volta, Justin!”. Existe um público, acima dos 30, saudoso de seu estilo canto-e-danço-e-me-aproprio-culturalmente. “Man of the Woods” (2018) foi decepcionante para a maioria de nós. Não salvo nada ali. Finjo que nem aconteceu. Justin faz falta, mas aceito esperar mais um pouco, se isso significar ele encontrar um sentido para si mesmo no mercado atual.

Temos Bruno Mars, que migrou para Las Vegas depois de uma turnê mundial de um ano e nove meses, com 215 shows no total. Bruno nunca errou. Seus três álbuns são incríveis, e seus shows conseguem ser ainda melhores. Superperformático! Faz falta. Se você não teve a chance de vê-lo ao vivo ainda, compre o ingresso na próxima vez que tiver oportunidade. Ele se supera a cada trabalho. Tem estado em estúdio desde o ano passado, o que me deixa animado para alguma surpresa, mas também assinou contrato com a Disney para um musical, o que pode adiar planos para um álbum próprio. Vamos acompanhar.

Recentemente, publiquei aqui no POPline uma matéria sobre o projeto secreto que Beyoncé vem desenvolvendo, com gravações de vídeos em vários países. Juntando todas as informações, concluo que pode ser um filme para o álbum “The Lion King: The Gift”. Como ela lançou o “Homecoming” um ano depois do show no Coachella, não seria absurdo lançar um visual para o disco tanto tempo depois também. Não é exatamente o que eu estava esperando, mas ela sempre faz algo digno de atenção. Parece-me que Beyoncé está em outra ultimamente e que a fórmula álbum+tour não a satisfaz no momento.

Mal ou bem, dela temos novidades frequentemente, mas e de Rihanna? Fora as linhas de maquiagem e lingerie, nada. Rihanna absolutamente deixa saudade. Na última semana, até saiu uma música do PARTYNEXTDOOR com ela (“Believe It”), mas ninguém pareceu dar muita atenção. É mais ou menos como se o público dissesse: “poxa, esperamos tanto tempo para você voltar com feat. na música dos outros?”. O álbum novo segue uma lenda. Ela já disse que será um disco de reggae e tenho minhas dúvidas se o grande público vai aderir.

Britney Spears, com todos seus problemas pessoais e familiares, cancelou a única coisa que os fãs tinham, que era sua residência de shows em Las Vegas. Ela estava prestes a estrear um show novo, em um teatro diferente, quando suspendeu todas as atividades profissionais. Os motivos foram justos (ela foi para uma clínica de reabilitação e tudo) mas definitivamente há uma parcela do público que teme por sua aposentadoria definitiva. O título de “princesa do pop” veio quando éramos adolescentes e os fãs conquistados nessa fase são fiéis até hoje. Mesmo seu último álbum (“Glory”, 2016), que não fez tanto sucesso, entregou boas faixas para dançar.

E Adele, gente? Alguém precisa convencê-la a trabalhar mais. Os longos intervalos entre álbuns são eficazes para catapultar as vendas nos lançamentos, mas nos deixam abandonados por muito tempo. “25”, seu último disco, fará aniversário de cinco anos em novembro. Eu espero que o álbum novo saia perto disso. Adele é sem paralelos. A cara do pop adulto. Estou ansioso pelas músicas de mulher divorciada.

No pop nacional, acho que são Sandy e Wanessa Camargo que fazem mais falta para o público. Com estilos completamente diferentes, atendem a demandas distintas dos ouvintes. Sandy fez uma turnê grandiosa com o irmão Junior no ano passado, o que mexe com o saudosismo de todos, mas os fãs já estão ansiosos por seu retorno solo. Ela pretendia lançar quatro músicas neste ano, antes da pandemia do coronavírus. Seus shows são de mesas e cadeiras, para se assistir sentado. Muita gente vai de casal. Wanessa, por sua vez, apesar de todos os desvios confusos da carreira, se pautou mais pelo pop dançante. Os fãs vão aos shows para vê-la e para dançar. Muitos adultos sentem falta “daquela Wanessa” em um mercado que hoje em dia é muito apoiado no funk quando se trata de pop dançante. Os elementos que ela explorava eram outros e deixam uma galera abstente.

Já disse inúmeras vezes que adultos consomem música de uma maneira diferente que os adolescentes. Mas é importante que consuma! Seja quem for seu favorito nessa pequena seleção que me faz falta, dê atenção quando ele voltar com músicas novas. Vejo muita gente reclamando que seus ídolos não lançam nada e, quando os artistas finalmente aparecem, esses mesmos reclamões “deixam para depois” e não dão a mínima. Sei que a gente tem nossa playlist de estimação e que ela nos satisfaz, mas é preciso incentivar quem a gente gosta, senão não terá nada novo nunca. Quem você quer que volte logo?

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Coluna do Leonardo Torres: e quando os impactos culturais estavam nas mãos da música pop?

São tantos lançamentos e os ciclos de vida das obras são tão efêmeros que é difícil dizer qual foi o último momento verdadeiramente icônico.

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(Foto: Reprodução)

Thriller. Sutiã de cone. Biquíni de fita isolante. Vestido de carne. Single Ladies. Anaconda. Famous. Oops… I Did It Again. Born This Way. Wrecking Ball. Show das Poderosas. Era Teenage Dream. All I Want For Christmas Is You. I Will Always Love You. Lady Marmalade. Wannabe. Work. Beijo de Madonna, Britney e Christina no VMA. Jelena. Cabeça raspada. “Beyoncé”, o álbum. O peito no Super Bowl. Ragatanga. Uptown Funk. Baby. Bad Blood. Rehab. Hello. Formation. A cobra, o twerk, a performer sangrando, o Gimme More no VMA. Você reconhece todos esses momentos, certamente. São ícones da música e da cultura pop. Agora te dou um tempo para pensar em qual foi o último momento icônico da música pop recente. Tome seu tempo. Eu disse icônico.

São tantos lançamentos e os ciclos de vida das obras são tão efêmeros que é difícil dizer. Eu pensei em “thank u, next”, que ficou sete semanas no topo da Billboard, liderou paradas em 14 países, fez todo mundo repetir o refrão e deixou todos os fãs do gênero em expectativa para a estreia do clipe, que na época quebrou recorde de maior número de acessos nas primeiras 24 horas. Foram 55,4 milhões. Mas isso aconteceu no fim de 2018 e já estamos no início de 2020*.

*Ariana ainda teve “7 Rings” depois, que foi um sucesso avassalador, mas não considero icônico.

De lá para cá, parece que os pontos altos cultura pop não estão mais na mão da música pop necessariamente. “Old Town Road” (Lil Nas X) e “The Box” (Roddy Ricch) são raps catapultados pelo TikTok, app que ainda não conseguiu ajudar a música pop, embora todos os artistas estejam correndo para lá (Justin tentou sem sucesso forçar um viral de “Yummy”, por exemplo). O próprio fenômeno da Cardi B, como um todo, não é exatamente do pop. Billie Eilish explodiu, mas ainda não entregou um momento icônico para que todos comentem no Twitter ou na mesa do bar. Não é todo mundo que sabe quem é ela ou algo que ela tenha feito. Lizzo, idem. Essas pessoas têm seus momentos, mas não protagonizam ainda momentos globais. Não furaram a bolha. Seus pontos altos são importantes apenas para suas próprias carreiras, e não representam parágrafos na História.

No Brasil, o que temos tido de icônico? Não lembro. O viral “Tudo OK” não é pop nem icônico. É só viral, tipo MC Loma. As músicas e o clipes da Anitta há muito tempo não têm mais impacto. É tanto material despejado sucessivamente que ela mesma não tem como caprichar no conteúdo, na inovação e no efeito surpreendente, nem o público tem como prestar atenção em tanta oferta. Não quero criticar Anitta. Ela já fez bastante e já foi muito boa nisso algum dia**. Todo mundo que veio em sua rebarba não parece ter a mesma preocupação ou o mesmo tino para fazer algo “único” – que envolve tanto a qualidade quanto o marketing do lançamento e o impacto cultural. Os artistas pop nacionais, salvo algumas exceções, só estão querendo ter músicas suficientes para montar e/ou reciclar setlist e vender shows. Shows esses que, cá entre nós, estão longe de serem espetaculares. Temos visto músicas descartáveis acompanhadas de clipes que não vão muito além de cumprir tabela. Ou músicas maravilhosas, mas má embaladas e mal aproveitadas. Ninguém está propondo nada impressionante e/ou marcante. O que será lembrado daqui a dez ou 20 anos?

**Acho que teria sido icônico o clipe de “Faz Gostoso” com a Madonna, mas não rolou.

As músicas hoje em dia têm ciclos de vida muito curtos e é compreensível que artistas e suas equipes invistam menos tempo e dinheiro na criação de conteúdos. O buzz dura tão pouco! Nós enquanto público estamos consumindo diferente, todo mundo sabe disso. Mas sinto falta de popstars dispostos a fazer história, mais do que simplesmente lançar singles de vez em quando ou toda hora. Isso não é uma obrigação nem uma meta, é claro. É só um desejo meu, e talvez de alguém que esteja lendo aí também. A gente inegavelmente sabe quando algo nasce icônico aos nossos olhos, e isso é mágico pra caramba! Tudo tem sido tão “ok” ultimamente. Vamos ver o que Lady Gaga vai trazer em “Chromatica”. Estou curioso. Há muita gente com potencial para nos surpreender. Beyoncé é alguém que cuida de cada lançamento minuciosamente como se fosse uma obra-prima. Ainda que não seja. Mesmo que não alcance resultados impressionantes, você percebe o esforço e o investimento criativo dela em cada trabalho. Gosto disso. Acho que Adele, divorciada e repaginada, pode vir com bons momentos também. Ela parou o mundo da última vez só com um “hello”. Rihanna, quem sabe. Bruno Mars também é alguém em quem acredito. Vamos ver. 2020 está começando e o potencial de impacto pode estar nas mãos de alguém que ainda não conhecemos.

Continue a conversa comigo no Instagram: @falaleonardo.

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Coluna do Leonardo Torres: o pop para maiores de 30 anos

Você não sabe quem é Now United, não entende o que o BTS tem demais, não se interessa pela esquisitice de Billie Eilish e sente saudade de ídolos do passado.

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Você não sabe quem é Now United, não entende o que o BTS tem demais, não se interessa pela esquisitice de Billie Eilish e sente saudade de ídolos do passado. Os grupos que você gostava estão fazendo turnês de reunião – ou você está torcendo para que isso aconteça – e suas cantoras favoritas não são mais competitivas nas paradas. A maioria delas, na verdade, leva uma vida reclusa concentrada na maternidade. Parabéns, você chegou aos 30 anos.

Bem, eu pelo menos cheguei. Não foi exatamente agora, já faz alguns meses, mas ultimamente comecei a pensar no significado disso musicalmente. São três décadas de música pop, que podem ser divididas em etapas muito claras: infância / adolescência / início da vida adulta. De zero a dez anos, entrei em contato com Xuxa, Chiquititas, Sandy & Junior, Spice Girls e Backstreet Boys. Doz 11 aos 20, conheci Britney Spears, JoJo, RBD, McFly, mais ou menos isso. Você deve ter conhecido também os produtos da Disney neste período (Miley, Demi, Selena, Jonas…), mas eu nunca fui um menino Disney. Dos 21 aos 30, vieram Amy Winehouse, Adele, Bruno Mars, Justin Bieber (me rendi), Ariana Grande e Taylor Swift. E agora qualquer novidade pop parece teen demais para adentrar alguma playlist minha. Eu não posso dizer nem que realmente fico empolgado com o dia de lançamentos.

Tenho que admitir para você, leitor: não há nada que realmente me empolgue no Top 40 global do Spotify. Tá, “Señorita” é bem legal, mas sério, quem ainda aguenta escutar a mesma música depois de tantos meses? Fui ver o Top 40 mundial do iTunes. Salvo “Shallow” (meu Deus, quem são as pessoas que ainda estão baixando essa música?) e “The Man”, nada que me interesse de verdade ali. Uma pesquisa da Deezer em 2018 concluiu que as pessoas param de descobrir novos artistas, em média, em torno dos 27 anos e acho que isso explica muito.

Eu trabalho no POPline e isso me obriga a estar antenado e a par de tudo que está acontecendo, mas eu tenho certeza que seria muito mais fechado musicalmente caso não estivesse aqui. Simplesmente já sei do que gosto. Não preciso de mais, por mais ranzinza que isso soe. OMG, eu tenho certeza que essa coluna está soando como um tio velho. Eu ainda prefiro ouvir, neste exato momento, “Skyfall” a “No Time To Die”. Sou capaz de trabalhar ouvindo “Overprotected”, “Big Girls Don’t Cry” e “Hate That I Love You”. Tipo, isso aconteceu anteontem. Não é “ON”, “My Oh My” e nem mesmo “Don’t Start Now” que eu vou botar para tocar. Digo “nem mesmo”, porque muitos amigos curtem Dua Lipa. Ela conseguiu conquistar ouvintes acima dos 30. Ponto pra Dua.

Não tem jeito: o pop é jovem e a gente fica velho. Minha psicóloga diz que eu ainda sou “superjovem” e tenho mania de dizer que estou velho. Pode ser. Mas o pop sim é “superjovem”, mais jovem do que eu, sem dúvidas. Pessoas de 30 anos não levantam hashtags, não votam em premiações e, embora tenham o poder aquisitivo para comprar ingressos dos shows, pensam duas vezes, por conta dos boletos a pagar. Francamente, a gente movimenta muito pouco o mercado pop. Não dá nem para reclamar por falta de representatividade (contém ironia). Faz todo sentido Rihanna focar em lingeries e maquiagem. É o que vende. Lady Gaga, por exemplo, foi fazer jazz, rock, folk. Seu público cresceu, ela também, e é natural dialogar mais com outros estilos musicais. Veja bem, até estrela de cinema a “Mother Monster” virou. É mais fácil arrastar adultos para o cinema do que para mutirões no Spotify, é óbvio. Aí ela volta ao pop com “Stupid Love” e a gente mais acha estranho do que adora toda aquela estética de heroína de anime. Ela obviamente está tentando se comunicar com um público mais jovem (tentando conquistá-lo), aquele que movimenta a indústria. Os little monsters das antigas já estão conquistados e são fiéis.

Eita. Quando foi que deixei de ser o target da Lady Gaga? Quando foi que você deixou!?

Eu vejo muito dos meus pares reclamando que “o Grammy não é mais ou mesmo” ou que “a Billboard já não é mais tão boa”. Eu conto ou você conta? As premiações e as paradas estão repletas de músicas para adolescentes e jovens adultos… como sempre foram! Só que antes nós éramos essa galera. Hoje são os fãs do BTS que reinam, antes foram os do One Direction e antes os dos Backstreet Boys. A roda gira. Meio que sempre foi assim, sabe? A gente continua ouvindo as músicas que amamos da Britney, da Christina, da P!nk, mas há uma diferença absurda entre o consumo de um adolescente e o de um adulto. Um garoto “vive para a música” e aquilo ocupa um espaço enorme em sua vida. Um adulto, com tantas responsabilidades e afazeres, consome menos e, com isso, seus ídolos consequentemente se tornam menos relevantes comercialmente. O “Witness” da Katy Perry era mesmo ruim ou seus fãs apenas cresceram e não estavam repercutindo o trabalho dela? É um ponto. Não é à toa que, há décadas, Madonna sempre se associa a um artista bastante jovem para seus lançamentos: além de se manter sempre atualizada, ela sabe que precisa dessa audiência jovem para promover seu trabalho. Os fãs de 50 anos não são bons nisso. Vou chegar lá. Sei.

Estou em um processo de reflexão e autocrítica, porque não quero me tornar essas pessoas que dizem “bom mesmo era na minha época”. Não era nada. Tenho plena consciência de que enquanto eu adorava Sandy & Junior e RBD, as pessoas acima dos 30 anos achavam essas músicas uma grande bosta. Então cada um cumpre seu papel, em cada etapa da vida. O pop para maiores de 30 anos raramente estará no Top 10 da Billboard ou nos trending topics. E não será pior ou menos importante por não ser popular. Nós, já não garotinhos, sempre teremos Las Vegas e suas residências para assistir.

Para continuar essa conversa, me encontre no Instagram: @falaleonardo.

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