Foto: Acervo Pessoal
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“Um mercado organizado é bom para todo mundo”, diz Dani Rodrigues

Ela é empresária do Rashid e diretora da Foco na Missão Produções e Merchandising, escritório que administra a carreira do músico e sua marca de roupas. Ela é também uma das referências quando o assunto é empresariamento artístico no meio do rap e traz consigo mais de 10 anos de estrada e aprendizado ao lado do cantor.

Estamos falando de Dani Rodrigues, mulher, esposa de Michel (Rashid), amiga de Emicida, Fióti e Projota, que largou seu emprego como administradora em uma multinacional para viver de música. Para fazer aquilo que emocionava seu coração, que pulsava seu sangue. Por essa história de inspiração e superação que Dani é a convidada do POPline.Biz é Mundo da Música para o Gente.Biz – quadro que revela as histórias de vida, carreira e trajetória de nomes do mercado e que fazem a música no Brasil acontecer.

“Eu me emocionei pela paixão dos meninos por fazer música, viver de música, com mudar a vida das pessoas através da música. Isso me arrancou de dentro do escritório. Tinha dinheiro mas não tinha propósito”, revela Dani.

Mas, para entender toda essa trajetória de mais de 10 anos imersa no rap paulista, precisamos começar do começo. Lá em 2007, quando aquela garota apaixonada por R&B, telespectadora da MTV, começou a ouvir Racionais MCs voltando da escola, se viciar em vídeos de batalha de MCs no Youtube, e finalmente conhecer a “Batalha de Santa Cruz”. Foi lá que Dani ouviu pela primeira vez “os meninos” (como ela chama o trio Rashid, Projota e Emicida).

“Fui eu e minha irmã pela primeira vez. Começamos a ir todo sábado e conhecer todo mundo. Os meninos já eram muito famosos nessa batalha, eles já tinham provado o valor deles. Santa Cruz era uma batalha na rua, sem instrumental, era só abrir a roda e os caras rimavam”.

Foi então que o trio de rappers passou a frequentar a famosa “Rinha dos MCs”, organizada por Criolo e Pentágono – “Lembro que o Rael era do Pentágono nessa época”, conta. A rinha acontecia em uma casa de shows pequena, cabia cerca de 300 pessoas. Não havia palco, os rappers rimavam em cima de duas cadeiras, uma de frente para outra, com uma lâmpada no meio. A evolução era que lá eles tinham o acompanhamento de DJ com instrumental. “Lá era outro nível para quem já batalhava”, revela Dani.

Dani começou a namorar com Rashid e ajudar “os meninos” nas planilhas. Ela sempre foi boa com os números e organização. Em 2008, eles começaram a movimentar seus trabalhos solo e ela começou a ajudar com a parte burocrática. “Eu tinha experiência em administração, eu vinha de escritório, de financeiro, então eles começaram a pedir minha ajuda. Foi quando saíram as primeiras camisetas da Na Humilde Crew. Fiz as planilhas de venda, de quantidade de produção… Eu sabia sobre planilha e eles sabiam o que queriam com aquilo”, conta.


A realidade é que os meninos chegaram atropelando o mercado. Quem acompanhou o crescimento do rap nesse período viu que eles foram construindo uma base muito sólida para as novas gerações. A visão que esse trio tinha de um falar do outro durante as entrevistas, de união e fortalecimento, fez escola. E Dani viveu e fez parte de tudo isso.

“A molecada do rap começou a se identificar muito com eles, porque eles andavam de chinelo, sabe? Eles não tinham grana, não tinham nada. Então rolou uma identificação muito rápida do público, a linguagem deles era muito atual. A gente conseguiu um destaque muito rápido”, conta Dani.

Em 2011, o telefone e o e-mail não paravam. Rashid tinha uma agenda agitada e precisava de alguém que cuidasse mais objetivamente da sua carreira. No final deste ano, eles lançaram o show histórico dos “Três Temores”. “Ia ser só um show, mas as pessoas ficaram malucas, meu Deus, vendeu ingresso muito rápido! Quando acabou o show a gente conversou de fazer uma turnê no começo do ano seguinte”. Foi aí que ela foi colocada contra a parede.

“Rashid virou para mim e falou: “Minha carreira tá andando, mas se eu não estiver 100% dedicado, as coisas não vão acontecer como tem que acontecer. Então você tem que decidir se vai trabalhar comigo ou se vai continuar trabalhando fora”. Eu comecei a filtrar isso. Foi então que em 2012 eu pedi demissão para trabalhar com ele”, conta a empresária.

Assista os Três Temores:

Aprendizados

Quando Dani decidiu largar tudo para cuidar da carreira do Rashid eles já tinham 4 anos de namoro. Casaram e a vida a dois de verdade começou. O lançamento da mixtape “Que Assim Seja” foi a primeira virada de chave do casal. Na sequência veio a turnê com os Três Temores com shows muito grandes. “Eu falo que foi a minha faculdade de produção executiva”.

“Em um dia viajava eu, Rashid e o DJ, no outro eu tava viajando com uma equipe de 16-18 pessoas. Como sempre fui muito boa de Excel, era eu que fazia as planilhas de cronograma, financeiras, de divisões, de como organizar tudo, caixa de produção… Então eu digo que aprendi muito de estrada sobre produção executiva com o Fióti, porque ele já estava mais adiantado que eu, ele já era 100% dedicado desde 2009”.

Dani diz que foi “sugada para música” e que tudo isso que aconteceu na sua vida não foi nem de longe planejado. Tudo era muito novo e “a música foi me puxando, as coisas foram acontecendo e o artista que eu estava trabalhando era muito dedicado. Então, as coisas andavam e eu ia aprendendo ali a lidar conforme as coisas caiam no meu colo”, revela.

Ela revelou que a primeira vez que ouviu falar em Ecad, por exemplo, foi quando iria fazer um show no SESC e na lista de documentos obrigatórios tinha escrito “Liberação do Ecad”. “Eu fiz ‘O quê?’. Foi uma loucura! A gente não tinha ISRC de nada. Tinha três discos na rua sem ISRC, sem fonograma, sem direito autoral, sem nada. Fazíamos a música e colocava para rodar. Só que eu sou curiosa. Ninguém tinha falado disso para mim ainda, então fui aprendendo a fazer”, conta. E brinca: “Estou ‘catando cavaco’ desde 2010”.

Quer saber mais sobre a história de Rashid? Assista o documentário:

Casamento X Trabalho

Outra coisa que Dani revelou que foi aprendendo conforme as coisas foram acontecendo é o equilíbrio entre trabalho e relacionamento. A executiva contou que foi a DJ Pathy Dejesus que a alertou sobre os “perigos” de misturar relacionamento com trabalho.

“A gente se conhecia das Rinhas, quando eu falei para ela que tinha pedido demissão para trabalhar com o Rashid foi num show do Criolo. A Pathy me deu um puxão de orelha: “Dani, nunca deixe as coisas se misturarem. Se deixar se misturar demais, uma hora você vai ter que escolher se vai ser empresária ou esposa. Cuidado para você não precisar chegar em um momento assim”.

Segundo ela, o conselho segue ecoando de tempos em tempos na sua cabeça e a ajudou a criar regras dentro da relação: “Da porta do quarto para dentro não se fala de trabalho. Na cama? De jeito nenhum!”. Porém, ela confessa que tem momentos difíceis de lidar.

“Eu sou a pessoa da planilha e ele é um artista que quer fazer megalomanias e não faz as contas antes de ter as ideias. Então eu tenho que chegar e dizer “não, isso não” ou “quem vai pagar?”. A gente tem uns embates, mas que são sempre muito saudáveis e 5 minutos depois estamos vendo um filme. Ele é uma pessoa muito fácil de trabalhar, eu brinco que só trabalho com música porque é com ele”.

E foi essa relação de parceria que fez Dani levantar da cama depois de 45 dias internada em 2019. Após passar um ano memorável ao lado de Rashid, em 2018, quando o artista finalmente assinou com uma gravadora e teve uma editora por trás cuidando do seu catálogo. Foi quando ele fez turnê internacional e realizou o sonho de Dani de conhecer o Louvre (ela confessa que era fã do livro “O Código Da Vinci” e que seu papel de parede do computador era o museu).

No começo de 2019 Dani descobriu um tumor na medula, fez 3 cirurgias e viu sua vida de cabeça para baixo. Do dia para noite ela já não tinha forças para trabalhar e mesmo assim ainda ficou ativa na cama do hospital. “Eu acho que se não tivesse feito isso não teria sobrevivido. Eu fiquei em transe. Eu não chorava e não reclamava. Não sentia nada da cintura para baixo e falava: ‘Não, gente, eu vou voltar a andar!’. Mas eu não tinha essa certeza, tanto que quando cheguei em casa eu desabei”.

Dani contou tudo nas redes sociais, confira o depoimento emocionante:

Ela conta que durante sua estadia no hospital chorou poucas vezes, e uma delas foi quando estava assistindo o show do Rashid no Lollapalooza e percebeu que algo estava errado. “Eu precisava muito daquele show, sabe? Estava tudo dando errado, aquilo ali precisava dar certo. Só que eu conheço minha equipe. Comecei a ver uma movimentação estranha e a pensar que tinha alguma coisa errada”, conta. E tinha.

O show do rapper foi interrompido por uma uma chuva de raios na região e quando finalmente o evento retomou, já tinha estourado o tempo e passaram para a próxima atração. Rashid falou sobre o que aconteceu aqui.

Com 8 anos de casados, Michel e Dani passaram a viver uma rotina exaustiva de adequações e sessões de fisioterapia. “Fiz a minha equipe assumir funções que eles nunca tinham feito porque tínhamos um disco para entregar. Eu segui cuidando do financeiro e das coisas no computador, mas não tinha posição na cama, sabe?”, desabafa.

Com apenas 4 meses da sua alta, eles lançaram a primeira temporada de “Tão Real” – uma estratégia inusitada de lançar um álbum como se fosse as temporadas de uma série. O lançamento também marcou a primeira vez que Dani conseguiu subir uma escada após as cirurgias. “O Michel foi uma peça fundamental na minha recuperação. Tanto no psicológico de me mostrar o tempo todo que eu estava aqui, como fazer fisioterapia comigo todos os dias”.

Estratégia durante a pandemia

No final de 2019, a Lab Fantasma – empresa de Emicida e Fióti – assumiu o comercial do Rashid. “Tínhamos muitas coisas legais agendadas, vários festivais previstos, inclusive o Lolla. Estávamos conseguindo dar um passo muito bom que ainda não havíamos conseguido dar até por minha falta de expertise mesmo. Só que aí veio a pandemia e jogou tudo para o ar”, contou.

Dani conta que por estarem com a Lab a frente do setor comercial, e principalmente por eles terem um know how muito bom com marcas e entender do cenário do rap, durante a pandemia Rashid conseguiu fazer muitas lives patrocinadas. “Sempre que chega uma proposta nunca é simplesmente pelo dinheiro. É sempre “como podemos casar isso aqui com a nossa estratégia”. Sempre conectado com o que estamos fazendo nesse momento”, revela.

Além disso, uma das estratégias traçadas para esse momento foi a de trabalhar com a Daniela como empresária no mercado de eventos. Mostrar que existe um escritório por trás do Rashid e apresentar a Foco na Missão para o mercado. “Foi por isso que me coloquei na linha de frente para falar em várias coisas. Conseguimos colocar o Rashid como um multi-artista que ele é e mostrar que a Foco na Missão está pronta para trabalhar com qualquer artista”.

“Acreditamos também que nesse momento era importante ter pessoas como eu sendo porta voz do mercado, sabe? Para a gente não ficar na ilusão de que o mercado continua sendo só de homens brancos, de meia idade, de São Paulo e Rio de Janeiro. Então senti essa necessidade. Demorei muitos anos para me assumir como empresária e falar isso em voz alta. E demorei mais ainda para falar que eu era uma empreendedora, mesmo tendo 2 CNPJs há mais de 6 anos”, revela.

Dani quer mostrar o que está construindo, trabalhar a imagem do Rashid e mostrar o quanto ele é um bom letrista, produtor, um artista consciente e que tem ideia para trocar, além de ser criativo em várias áreas. Ela revela que vem projeto literário e outro musical ainda em 2021. “É muito importante a gente se colocar, trazer outras pessoas para o game e fazer elas se sentirem capazes”.

Por fim, Dani revela que está sentindo esse desejo muito forte de compartilhamento de informação. “Por muito tempo o nosso mercado foi muito restrito, não tinha live, matérias e não tinha nada. Acho que é importante esse momento de compartilhamento de informações. Um mercado organizado é bom para todo mundo”, finaliza.

Agora que você já conhece a história de Dani, que tal ouvir Rashid?

Escrito por Rafa Ventura

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