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Ney Matogrosso

“Sempre fui um espinho atravessado na garganta do meu pai”, diz Ney Matogrosso

Cantor ainda revelou que já foi oferecido R$5 milhões para ele fazer um show com Secos e Molhados, mas ele não aceitou

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Ney Matogrosso deu uma entrevista reveladora para a revista Marie Claire. O cantor falou sobre sexualidade, política, amor e carreira. Como sempre, sem papas na língua, Ney Matogrosso tocou em um assunto importante da sua história, que é a sua relação conflituosa com o seu pai!

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Sua figura, nos Secos & Molhados, colocou a androginia dentro de todos os lares do Brasil. Foi proposital?
Ney Matogrosso: Nem pensava nisso. Não estava preocupado com androginia ou não androginia. O que não queria era ser simplesmente um crooner de banda. Queria ser outra coisa, ter liberdade e, ao mesmo tempo, conseguir andar na rua. Porque ouvia falar que artista não podia na rua na rua e não queria isso para mim.

Era então uma proteção?
NM: Sim! E, paradoxalmente, na hora em que tapei minha cara, fiquei nu. Adquiri uma coragem de exposição física que não sabia que existia em mim. Quando via as primeiras fotos do Secos & Molhados, pensava: “Mas esse não sou eu!”. Parecia que um outro tinha me ocupado. A psicanalise explica isso. No momento em que você não tem rosto, você não é ninguém.

Você não tinha essa coragem?
NM: Eu era uma pessoa muito problemática com meu corpo. Naquela época já bem menos, mas fui uma criança enrustidinha, ficava ali no cantinho desenhando, com vergonha de tudo, de mim. Na adolescência, não havia hipótese de eu tirar a camisa na frente de alguém. Me achava um ser horroroso, vivia com a mão no bolso, porque tinha vergonha das minhas mãos, dos meus pés, das minhas pernas. Não queria que ninguém me visse.

Quando isso começou a mudar?
NM: Quando fui para o quartel. Ali, eu tinha que tomar banho na frente de 20 homens e entendi que seria um problema com eles. Se não tirasse a roupa naquele lugar, minha vida ia virar um inferno. Aí comecei a notar que tirava a camisa e ninguém me apontava como monstro…

Como é hoje?
NM: Tenho a consciência de que eu não tenho um corpo perfeito, mas mostro como se fosse. E aí é muito louco porque as pessoas acreditam.

Em que lugar está hoje essa insegurança?
NM: Não tenho mais. Eu tinha uma negação de pai que carreguei por muito tempo porque não tinha a consciência de que aquilo existia. Sempre fui um espinho atravessado em sua garganta sem eu nem saber por quê. Ele me perseguia. Até que, na época em que tomava Daime, tive uma memória absurdamente reveladora. Lembrei que, quando tinha 6 anos, ele me chamou de viadinho. Não entendi nada, nem sabia o que isso queria dizer. Aos 13, fez isso de novo. Só que aí eu já sabia responder e disse: “Não sou, não. Mas quando for, o Brasil inteiro vai saber”. Por isso, passei muito tempo sem saber receber amor. Já era famosíssimo e ainda carregava isso comigo. Eu me fechava quando me aplaudiam. Eu não sabia receber. Transar tudo bem, mas nunca existia uma segunda vez. Agora, eu me abro. Eu já chego aberto.

Seu pai assistiu o Secos & Molhados?
NM: Não. Ele me viu anos depois, quando fiz um show no Matogrosso. Tomou um remédio para o coração e foi me ver com a minha irmã. No fim do show, disse a ela: “Achava que era outra coisa, o Ney é um grande artista”. Quando chegou em casa, botou meu disco nas alturas para os vizinhos ouvirem. Mas nunca me disse nada, soube tudo isso pela minha irmã.

O momento político foi determinante para vocês se apresentarem daquela maneira?
NM: Sim, porque eu odiava a ditadura. E, naquele momento, você tinha duas alternativas: ou pegava em armas ou se submetia. Como eu não tinha o menor talento pra pegar em armas, usei minha libido como arma.

Que paralelo político faz daquele período com o que estamos vivendo hoje?
NM: Não digo que seja a mesma coisa, mas podemos estar caminhando para um momento tão severo como o da ditadura.

Ainda hoje, o Secos & Molhados é muito mais transgressor do que a maioria das coisas que aparecem na cena artística. Na sua opinião, o que atrasou essa evolução?
NM: A Aids. Não sei onde estaríamos hoje se não houvesse a doença. Nós vínhamos numa evolução estonteante! E ouso dizer que essa doença pode ter sido manipulada pelos americanos. Porque, nessa época, os gays dos Estados Unidos já estavam elegendo governadores, o que era uma ameaça paro o status quo da América. Quem fez uma bomba atômica e jogou sobre duas cidades matando milhões de pessoas não vai criar um vírus? Só que eles achavam que a Aids ia matar mais rápido do que matou, então deixou de ser conveniente.

Nunca pensou em voltar com o Secos & Molhados?
NM: Recebemos milhares de propostas, mas nunca aceitei. E me oferecerem muito dinheiro, tá? Uma vez, o governo de São Paulo me ofereceu 5 milhões para a gente fazer uma única apresentação. Eu disse: “Muito obrigado”. Não é o dinheiro que me move. Minha vida seguiu, por que voltaria para trás?

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