in ,

POPline Entrevista: “Sair na rua sempre foi um desafio para a letra ‘T’ da sigla”, revela Urias ao lançar “Racha’

“Não me subestime não, eu quero ver chegar até aqui” é um dos versos mais poderosos de “Racha” música e clipe de Urias, que, em meio a tantos lançamentos, foi comemorado nas redes sociais nesta semana. Entre aranhas e motores de carros potentes, a artista retorna com uma aposta visual contundente e elementos futuristas “sutis”, como ela mesmo definiu em entrevista ao POPline.

O clipe foi dirigido por João Monteiro, com quem a artista já havia trabalhado no premiado videoclipe de Diaba. A produção contou ainda com a coreografia de Flávio Verne e é a concretização de todo o processo criativo do novo trabalho da artista, que revelou pensar no estética e no vídeo antes mesmo da composição e produção da música.

Foto: reprodução/ Instagram @urias

“Eles mandaram uma base e alteramos algumas coisas e ela foi me dando uma noção do que eu queria falar na música. Já tinha pensado no clipe para compor a música, mais ou menos o que eu queria simbolizar e aquilo que eu queria deixar entrelinhas também, para várias interpretações” – disse a cantora ao revelar como foi produzir a canção.

Em Racha, Urias contou com o talento dos produtores da Brabo Music (Gorky, Maffalda, Zebu), já conhecidos por inúmeros trabalhos ao lado de sua fiel escudeira Pabllo Vittar, e a composição feita em parceria com cantor amazonense Number Teddie (Geovanne Aranha), com quem fez várias ligações de vídeo durante a construção da letra.

Divulgação

Urias sempre investiu na estética e, com o seu novo projeto, isso se tornou ainda mais intenso. Ela contou ao POPline que queria aspectos visuais que remetessem a um futuro não muito distante e buscou inspiração no vogue e nos ballrooms dos anos 80 ao brincar com aranhas tanto na capa quanto no clipe da nova música.

E, falando em música, Racha brinca com elementos da música eletrônica, sonoridade na qual Urias diz se sentir muito próxima, até por sua intimidade com a tecnologia. “Na minha cabeça, eu estou assim: ‘ai não tem no brasil, sabe?”, brincou a cantora dias antes do lançamento.

Confira abaixo o clipe de ‘Racha’:

Embora não pretenda abandonar a sonoridade, muito bem explícita em Racha, a cantora tem vontade de ir além em seu álbum, que está em produção. Ela adianta a pretensão mostrar outras vertentes e talentos no novo projeto. “Vou fazer de tudo pra lançar meu álbum. Quero ter um trabalho completo, que se encaixe no final (…) É sobre como eu me sinto e interpreto as coisas”, disse.

O primeiro álbum da carreira de Urias deve contar com algumas parcerias ainda não reveladas, mas os fãs podem esperar por novidades da cantora também em projetos de outros artistas. “Estou levando essa nova parte como um novo passo na minha vida, que eu vou aproveitar de um jeito muito único.”, disse.

Enquanto não para de produzir, a cantora mostrou as suas referências e indicou alguns trabalhos que permeiam a sua arte. Entre o último trabalho de Beyoncé e o ‘Anti’, de Rihanna, destaca-se Ventura Profana, ‘missionária e pastora das travestis’, de quem Urias fala mais de uma vez durante a entrevista. 

“Tenho tentado trazer as coisas do meu passado e projetar isso pro futuro e afrofuturismo também é sobre isso. de construir um futuro nosso, que foi nos negado por muito tempo. Então, projetando essa perspectiva de um futuro é que a gente consegue passar pelo o que a gente passa hoje em dia”, revelou ao ser perguntada sobre a influência do trabalho de Beyoncé em sua obra. 

Pandemia, política e música.

Assim como grande parte dos trabalhos lançados no segundo semestre de 2020, Racha foi produzida em meio a pandemia. Mesmo consolidada em seu meio, Urias não esconde que passou por apertos durante o período de isolamento social mesmo dividindo o espaço onde mora com seus amigos.

“No primeiro mês, estávamos bem ‘okay, ‘vamos ficar aqui, de boa’, fazíamos comidas juntos e tudo mais, mas foi passando o tempo e eu fiquei ‘meu Deus, eu não estou fazendo shows, né? Como vou pagar as minhas contas, o aluguel, minhas coisas?’. Foi meio desesperador (…) Depois, veio essa coisa da incerteza de não saber como vai ser, era tudo muito essa dúvida. Para ser bem sincera, agora, as coisas estão se encaixando direitinho, não quer dizer que não esteja menos grave”, contou Urias. 

Se por um lado a pandemia prejudicou a artista, por outro, ela revelou viver em constante isolamento social por ser quem é:

“A quarentena não foi muita novidade para mim, porque, sair na rua, sempre foi um desafio para a letra ‘T’ da sigla [LGBTQUIA+].”

Foto: reprodução/Instagram @urias

Quando perguntada sobre as suas percepções em relação ao cenário político, Urias talvez pudesse responder com um verso de “Racha” quando canta que “sua burrice é tipo nitro pra mim e seu ódio só me faz querer mais”. Em resposta ao POPline, a cantora refletiu sobre o papel do artista diante das adversidades políticas do Brasil:

Eu sinto que a gente tem muito o que falar, muito o que pautar e que temos que focar na melhoria das necessidades básicas e eu acho que o artista LGBTQUIA+ trás isso para a comunidade, sim. Por menor que seja, por mais que tenha falta de acesso, acho que a gente consegue trazer excelência através da precariedade.

Citando novamente Ventura Profana, Urias falou da importância da representatividade na música em meio a um cenário que provoca desafios psicológicos especialmente a pessoas em situação de vulnerabilidade:

“Eu, como artista, levo tudo o que eu falo como um ato, porque, querendo ou não, o meu corpo é político. Onde eu chego, a minha pauta chega comigo. O meu corpo fala primeiro, antes que eu abra a boca. (…) Eu vejo isso nas pessoas que se identificam com o que eu falo, que se identificam com a minha música, que buscam conforto no meu trabalho. É muito bom saber que a gente proporciona isso para as pessoas”.

Mais madura, a artista hoje entende o papel que suas principais referências tiveram em sua trajetória ao se tornar também uma inspiração.

“É o que a gente sentia quando eu ouvia Lady gaga, Rihanna, Beyoncé e falava ‘Meu Deus! Isso pra mim, sabe?’, receber isso de volta é muito incrível. Eu espero que, de alguma maneira, esteja dando força para alguém, porque, para estar aqui, muitas das minhas me deram força também”.

 

Escrito por Douglas Françoza

Murilo Alvesso

Adriana Calcanhotto lança ‘Margem, finda a viagem’, registro audiovisual que encerra trilogia marinha

Jojo Todynho debocha de Mirella: “Pensei que estava com febre”