Leonardo Torres: o ciberbullying com membros de girlgroups
(Foto: Divulgação)
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Leonardo Torres: o ciberbullying com membros de girlgroups

Saída de Jesy Nelson do Little Mix escancara problemas de comportamento do público na Internet.

Já faz um mês que a cantora Jesy Nelson anunciou sua saída do grupo Little Mix. Passado o frisson, é importante refletir sobre as circunstâncias de seu desligamento. Jesy escreveu, em carta aberta para mais de sete milhões de seguidores, que “estar em um girlgroup afetou sua saúde mental”. Ela citou a pressão constante para corresponder às expectativas do público.

No documentário “Odd One Out” (2019), da BBC, ela revelou que o ciberbullying foi difícil desde o início, no “X Factor”, em 2011. Ainda no programa, a chamavam de baleia e repulsiva e sugeriam que ela se matasse. Isso afetou sua autoestima, seu humor e sua rotina. Quem assistiu ao documentário sabe que sair do Little Mix não foi o pior final possível. Jesy Nelson já tentou o suicídio pelo menos uma vez.

“Eu não era conhecida como uma das cantoras do Little Mix. Eu era conhecida como a ‘gorda e feia’. Isso literalmente consumiu cada parte de mim. O que diziam para mim me afeta até hoje”, Jesy Nelson disse no “Odd One Out”.

Leonardo Torres: o ciberbullying com membros de girlgroups
Jesy Nelson (Foto: BBC)

Discurso de Jesy Nelson ecoa entre girlgroups

Outras cantoras que fizeram parte de girlgroups concordam: a pressão, as cobranças e o ciberbullying são pesados. Às vezes, muito difícil mesmo de lidar. Ex-integrantes do Rouge, do Girls e do Ravena, grupos de três gerações diferentes do pop nacional, compreendem perfeitamente o que Jesy quer dizer.

“Já pensei em desistir muitas e muitas vezes! Até hoje, às vezes eu penso nisso. Depois passa. Acho que faz parte. Os haters sempre vão existir! Ou a gente aprende a lidar ou sai de cena mesmo, pela nossa saúde mental, física, espiritual, porque senão a gente surta!”, Li Martins, do Rouge, diz ao POPline.

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Rouge, no primeiro ano de carreira (Foto: Divulgação)

Quando o Rouge começou, em 2002, não existiam redes sociais. As críticas mais pesadas vinham da imprensa. “A mídia não dava muito crédito para a gente, por termos vindo de um programa de televisão. Achavam que a gente não cantava de verdade. Isso machucava”, conta Lu Andrade. Mas, em 2004, nasceu a primeira rede social que conquistou o Brasil, e isso aproximou o público dos artistas, para o bem e para o mal. “Eu peguei uma fase de Orkut na qual o público já era bastante cruel”, lembra Li Martins.

“O que piorou mesmo de lá para cá é que a gente está muito acessível e exposto na Internet agora. Antes, estávamos mais ‘protegidos’ porque só aparecíamos em programas de TV. Os fãs não tinham acesso ao nosso dia-a-dia. Hoje você posta uma foto no Instagram e tem gente criticando seu corpo. Se você está magra, se o peito está caído, se a bunda tem celulite… Isso é muito chato! Imagine para essa geração mais nova: meninas que estão passando por uma mudança de corpo, que já é algo que deixa a gente super insegura, aí vem um monte de perfil, na maioria fake, para te criticar? Tem muita gente que surta, e com razão!”, completa a cantora.

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(Foto: Rosselly Dourado Fotografias)

Vítimas de ciberbullying podem desenvolver depressão (como Jesy)

Lais Bianchessi é uma sobrevivente. Aos 22 anos, integrou o grupo Ravena, formado na versão brasileira do “X Factor” e se viu no olho do furacão. O público queria um Little Mix ou Fifth Harmony brasileiros e a cobrança era enorme. As críticas também. “Eu era fissurada em ver se as pessoas estavam falando algo negativo sobre mim. No fundo, parece que eu já esperava por isso”, lembra ao POPline. Buscando se adequar às expectativas, ela mudou seu comportamento e seu cabelo em busca de aprovação. Mesmo assim, não conseguia.

“Quando você faz parte de um grupo, esperam um padrão em relação às integrantes. Se por um momento alguém achar que você destoa, você é massacrado. Dentro do grupo que participei, todas sentiram isso em algum momento”, conta Laís.

Ela adoeceu. Tentando agradar a todos, caiu em depressão. “Eu nem sabia mais quem eu era. Tanta gente me falando como eu deveria ser, me portar, as roupas, a atitude, posicionamento, que eu realmente me perdi”, diz. Ela precisou sair de São Paulo e voltar para sua cidade natal em Londrina para se reerguer. “Faço terapia até hoje. Passei uns seis meses bem complicados de tratamento. Cheguei ao fundo do poço mesmo, desativei meu Instagram por dois meses”, conta.

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Lais (no centro) na época em que integrava o Ravena (Foto: Reprodução / Instagram @ravenaoficial)

O ciberbullying é pior com girlgroups?

Você pode estar pensando: elas não passam nada diferente do que qualquer pessoa com alguma visibilidade. Com qualquer fama, vêm os haters. É uma realidade. Mas quase todas concordam que estar em um grupo feminino potencializa isso. Há o incentivo à rivalidade feminina, as cobranças por se encaixar em padrões estéticos ou a corresponder a ideais de sucesso e glamour, e a própria visão de que as integrantes são um produto.

A psicóloga Marina Carino, co-criadora do grupo terapêutico feminino (Com)versando Com Afeto, diz que as pessoas se sentem mais autorizadas a comentar e criticar quando o alvo são mulheres. “As cobranças e julgamentos se tornam mais cruéis”, pontua, “em sociedades onde o culto às celebridades e à fama toma proporção tão grande, a cobrança e objetificação das pessoas famosas é proporcional à visibilidade que possuem”.

Comparações e incentivo à rivalidade feminina

Bruna Rocha experimentou a exposição de um girlgroup quando tinha 19 anos e ganhou uma vaga no Girls ao participar do programa “Fábrica de Estrelas”. Ela concorda que a pressão e as cobranças eram maiores quando fazia parte do grupo. Hoje, em carreira solo, é diferente. No grupo, tinha a pressão para ser perfeita e uma constante comparação com as outras integrantes, que não era saudável para nenhuma delas.

“Dentro de um grupo, isso com certeza vai existir. Às vezes nem tanto entre a gente. Mas uma comparação de fora: ‘ai, aquela Fulana é melhor do que essa daqui. A roupa daquela estava mais legal, o brinco, o cabelo…’ Isso acaba, querendo ou não, atrapalhando todo o conjunto. Cria uma rivalidade que nem existe dentro da banda”, sinaliza a cantora.

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Girls (Foto: Divulgação)

Pela imaturidade da época, Bruna lembra que era mais ligada nos comentários das redes sociais – mesmo caso de Laís. Ela se importava com tudo que era dito. Antes mesmo da estreia do grupo, as comparações e críticas eram pesadas, dadas o formato do programa: uma competição entre diversas candidatas por vagas no Girls. A pergunta “qual menina merece entrar no grupo?” pautava o debate dos telespectadores.

“A gente não se blindava muito. A gente não estava preparada psicologicamente. Eu lembro que nossa aparência incomodava muito e atrapalhava a gente mesmo. A gente mudou muito nosso cabelo e ligava muito para o que os outros iam pensar. Eu hoje ando muito mais desligada da Internet. Não ando lendo tanto, mas recentemente me perguntaram se estava grávida, porque estou um pouquinho acima do peso que tenho normalmente”, revela.

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(Foto: Reprodução/ Instagram @brunarochabr)

Ataques racistas, infelizmente, são comuns

Bruna é branca, loira, magra, totalmente dentro do padrão de beleza imposto midiaticamente. Ainda assim, alvo. “Mesmo mulheres consideradas dentro do padrão sofrem pressões estéticas constantes, algo que vem desde bem cedo na vida, ainda na infância e adolescência”, diz a psicóloga Marina Carino. Imagine quem escapa ao padrão.

Nos Estados Unidos, Normani teve que enfrentar ataques racistas no Twitter quando tinha 20 anos e fazia parte do Fifth Harmony. Na época, ela optou por se afastar da rede social. “O ódio direto e subliminar tem sido direcionado a mim por muitos anos, apenas por causa da cor da minha pele. Seria desonesto se eu dissesse que esse cenário em particular não me machucou”, ela disse ao G1 anos mais tarde.

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Normani (centro) na época do Fifth Harmony (Foto: Getty Images / Uso autorizado POPline)

No Brasil, dá para imaginar que não é diferente. Jeniffer Nascimento, ex-Girls, vivenciou ataques desde o início do grupo. Na primeira vez que o grupo foi noticiado no POPline, em 2013, um dos leitores comentou que ela parecia uma capivara. Outro, que parecia um chihuahua (raça de cães). Ela lembra disso até hoje. “Para mim, foi um choque perceber tamanha maldade do ser humano nas redes sociais. Nós, que estávamos ali no início de um sonho, ler comentários assim foi muito cruel. Sofri muito no começo”, relembra.

“Saber que as pessoas estavam ali mais pra competir ‘quem fazia o comentário mais pesado para ganhar mais curtidas’ me deixou muito desanimada com o ser humano. A internet é uma arma poderosa para os covardes”, completa.

Racistas covardes também a atacaram mais tarde. Mais de uma vez. Um caso em especial a marcou: uma pessoa comentou em uma foto no perfil dela perguntando “quer banana, Jeniffer?”. Na época, ela não sabia direito como denunciar. “Respondi que queria sim, para pessoa passar o endereço, que eu buscaria com meu advogado. Os fãs denunciaram o perfil e ele saiu do ar”, conta.

PARTE 2 DA COLUNA: E quando os fãs são tóxicos?

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(Foto: Reprodução / Instagram @jeniffer_nascimento)

Você não precisa integrar um girlgroup para ser alvo de ciberbullying. Crimes virtuais podem ser denunciados em delegacias especializadas ou pelo site da Safernet.

Escrito por Leonardo Torres

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