Foi ao som do “Hino da Torcida Nº1” que os brasileiros acompanharam e comemoraram a vitória da Copa do Mundo de 1994, realizada nos Estados Unidos. Para resgatar esse espírito campeão e a confiança na seleção brasileira de futebol, IZA e Daniela Mercury regravaram a música para uma publicidade, e estreiam o clipe nesta sexta (8/6). “Estavam procurando mulheres cantoras, que achavam que podiam fazer parte dessa campanha e da releitura desse hino. Fiquei muito lisonjeada por saber que pensaram no meu nome, principalmente para estar junto com a Dani, que é uma mulher incrível e que eu admiro muito”, IZA diz ao POPline.
O clipe foi gravado em um galpão na Mooca, ao lado da linha do trem, em São Paulo, há menos de duas semanas e o POPline foi convidado para acompanhar os bastidores. Foram horas e horas de trabalho. A equipe responsável pelo set chegou às 7h da manhã para preparar tudo e gravar com os figurantes. Depois do almoço, chegaram as estrelas. IZA apareceu às 15h para emendar duas horas de cabelo, maquiagem e figurino dentro de um trailer. Ela seria a primeira a gravar suas partes individuais, dirigida pela dupla Kill the Buddha. O POPline teve um momento com ela antes de entrar no set, e a conversa rolou enquanto ainda ajustavam detalhes no figurino, na maquiagem e no cabelo da cantora. “Ai, ai, ai!”, ela sinaliza, quando a apertam demais dentro da roupa. Para a gravação, a carioca conta com dois figurinos, desenhados especialmente para ela por Ben, da Casa dos Criadores, e Giulia Borges. A personal stylist de IZA, Bianca Jahara, conta um pouco das escolhas:
– A gente fez dois momentos: o street em prata e o dourado pensando a vitória. O prata reflete as cores da iluminação do cenário. Ia ser vermelho, mas houve uma mudança para o prata de super última hora. O Ben desenvolveu o figurino em três dias. Fizemos a prova de roupa na véspera de madrugada. Aí tem outro momento, com ela e Daniela juntas, pensando a vitória, com o dourado como a cor do comercial. É o momento de roupas de mais alta costura, em contraponto ao street. A gente construiu um vestido de terno dourado, sempre tentando trazer para o universo dela. Como sou personal, a gente tem que conciliar a demanda do comercial com aquilo que tem a ver com a IZA. Ela não é uma atriz indo fazer um personagem. É ela, e tem que manter a construção de imagem. Todos os looks que a IZA usa em clipes foram desenhados especialmente para aqueles momentos. A gente gosta de trabalhar dessa forma. Não é fácil chegar numa loja e encontrar uma roupa para a IZA usar. Você não vai achar nada disso para vender.
(Foto: Felipe Panfili)
Primeiro, IZA e Daniela gravaram suas sequências “street”. Cada uma ficou cerca de 40 ou 50 minutos no set individualmente, e depois gravaram juntas. Toda a gravação entrou madrugada adentro. “A gente já tinha se encontrado algumas vezes antes e, por causa desse trabalho, a gente tem uma série de coisas juntas. A gente gosta muito de dançar, e a gente pensa muito parecido. Fico feliz da gente se dar tão bem assim”, diz IZA. Por sua vez, Daniela também é só elogios à parceira de clipe. Diz que admira o timbre, a postura e a inteligência de IZA. “Ela tem um repertório muito acertado, consistente. Às vezes você tem o talento, mas o repertório não tem um peso conceitual tão importante. Ela tem isso. E ela tem uma doçura e uma humildade de artista que cresce, que tem tudo para crescer. Eu sinto a IZA com essa relação bonita com a música, de verdade”.
Fez frio em São Paulo naquele dia, e as duas estavam com figurinos sexy, com as pernas de fora e pouca roupa. Enquanto IZA comia, aquecida pelos holofotes e pela dança, Daniela circulava com um sobretudo por cima do figurino. “Por favor, não me filme nesse escuro, não”. A artista está atenta a tudo o tempo todo. Logo depois de fazer o teste de luz e o primeiro take, ela pede para ver com os diretores como está o enquadramento: “para eu saber o tipo de movimento que posso fazer”. IZA diz que admira a força da baiana. Talvez a colega não saiba, mas foram de Daniela os primeiros shows que ela viu na vida, quando morava em Natal. “Por mais que eu não seja cantora desde sempre, acho que ela me inspira desde sempre. Ela é uma mulher muito importante para a música brasileira e pra mim também”. Em seguida, com tanta gente mexendo nela – maquiador, cabeleireiro, figurinista, assessora – IZA se atrapalha e bate com a unha postiça, que solta. “Chama a manicure. Não. Deixa que eu colo. Só segura a unha”. O dia é corrido. São horas de espera seguidas de horas de muita correria.
(Foto: Felipe Panfili)
Quando o assunto é futebol, as duas se animam. IZA conta que adora ver os jogos com a família e os amigos. Daniela, por sua vez, é daquelas que vai par ao estádio mesmo. “Fui para a Copa da Alemanha, a Copa dos Estados Unidos… vi a semifinal e a final em que o Brasil ganhou nos Estados Unidos”, lembra, “fiz músicas para a bola, inclusive: ‘Cheia de Graça’. ‘A bola passa / cheia de graça / com toda bossa / chega a sambar’, como se a bola fosse uma mulher, que todos desejam e sonham. Fiz comparando com ‘Garota de Ipanema’ para nós que amamos tanto futebol”. Mas ela admite: também sofre muito. Nessas idas para estádios, viu a Copa da França – em que o Brasil perdeu. “Defendi a música brasileira com ‘Rapunzel’ lá. Sou da seleção da música popular brasileira. Acho que a música e o futebol são dois grandes ícones da cultura brasileira, tanto para nós quando para os estrangeiros”.
As duas cantoras dão uma prova de que pensam parecido quando falam que a Copa do Mundo pode servir para unir a população novamente. “A gente está passando por um momento muito complicado no país. Quando a gente, que tem inúmeros problemas, pessoais, sociais e políticos, consegue se juntar para torcer pelo país, não acho que isso possa ser negativo. Acho muito bonito a maneira como a Copa une as pessoas”, aponta IZA. Daniela diz que o esporte é sempre positivo para qualquer sociedade, porque traz a lembrança da ética, do respeito e do trabalho em conjunto. “Princípios educativos”, sinaliza a baiana, “não acho que é essa coisa do pão e circo que a vida toda se propaga. Não acho que o brasileiro vai deixar de pensar nos problemas por muito mais tempo do que o tempo dos jogos. A gente tem que lidar com a realidade: difícil é segurar a alegria. Vou lembrar uma frase de Milton Santos, um grande intelectual negro que faleceu há pouco tempo: ‘um povo que faz festa é superior a um povo que não faz’. Mandela resolveu os problemas de união do país com um rugby, um esporte. Espero que o Brasil se una com a Copa do Mundo e a gente lembre que é um povo só, para votar em um presidente para representar toda uma nação”.
(Foto: Felipe Panfili)
(Foto: Felipe Panfili)
(Foto: Felipe Panfili)