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Entrevistas

Especial 2010/2019: o crescimento do poder feminino na música

É hora de todo mundo entender de uma vez por todas: essas jovens cantoras não se calarão.

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Vivemos muito em uma década (ufa!) e lutamos por causas importantes. Nada é adquirido de graça e às vezes nem por direito, sem muito debate e, principalmente, enfrentamento. Não foi assim com ganhos desfrutados na atualidade e nem será assim com o que a nova geração de artistas espera ajudar no futuro. De 2010 a 2019 vimos surgir nomes que usaram a sua voz para afrontar enfrentar. Quer que seja um sistema ou a opinião de uma só pessoa. E a batalha foi assumida por ELAS. Mas, para a gente começar a avaliar essa luta é preciso voltar um pouco mais no passado – antes mesmo que elas tivessem o espaço que tem hoje.

Basta uma busca pelo POPline no início dos anos 2010 para encontrar poucos nomes femininos em alta, fazendo pop e com impacto na audiência. Ouvíamos internacional, o rock como Charlie Brown Jr., CPM 22, Detonautas e NX Zero e sertanejo. Wanessa era um dos nomes mais recorrentes e quase que nadava sozinha na corrente do pop dançante, até cantando em inglês.

Logo depois veio Anitta. “Show das Poderosas” estreou no POPline em abril de 2013 e marcou não só a carreira da artista, que iniciava uma transição na carreira, como o cenário pop de mainstream. Uma corrente de novos nomes chegou avassaladora, fomentando o nosso mercado e finalmente fãs do gênero puderam ver um movimento. Não havia mais uma luta solitária de uma ou duas artistas. Tínhamos uma cena em crescimento exponencial. “Vejo o fortalecimento da imagem feminina no mercado como a legitimação de um fato. Mulheres são capazes e nunca foi diferente. A diferença é que hoje no tempo da informação fica bem difícil esconder tudo o que nós temos feito e o quanto temos contribuído para o crescimento do mercado”, nos disse a jovem Malía.

Para Lexa, a democracia das plataformas de streamings é uma das maiores ajudas. “Foi uma conquista para a gente. Poxa, a galera não tem noção do quanto é difícil colocar uma música no Top 10, coloquei duas (simultaneamente, “Chama Ela” e “Combatchy”) e isso é sensacional! Tinha eu, a Anitta, a Luísa Sonza, a Tati Zaqui, a Marília Mendonça, a Giulia (Be), a Rebecca, Iza, uma galera dentro do mesmo Top 10, várias mulheres. Antigamente era tudo dominado pelos homens. Não que eles não continuem sendo a maioria, tá? Mas é uma grande conquista pra gente. Estamos trabalhando muito, a gente se apoia muito, a gente lança toda hora, a gente alimenta a galera que consome música e isso de alguma forma acaba fortalecendo. Quando as mulheres se unem, amor, não tem pra ninguém (risos). Não adianta! Acho que além da amizade, tem essa sororidade mesmo, sabe? De parceria, de querer ver a outra no topo também, ver todas progredindo. Não que eu não queira ver os homens progredindo, mas dentro da nossa atual situação no país, é óbvio que quero ver as minhas amigas brilhando. A gente aquece o movimento, a gente gera mais shows, gera mais streams e gera mais interesse, que é a palavra do ano”.

O momento que Lexa se refere foi no início de dezembro passado quando das 50 posições do Spotify Brasil, 23 eram ocupadas por mulheres – a maioria entre as 10 mais ouvidas. Marília Mendonça e Anitta, por exemplo, fecharam 2019 acima de um bilhão de streams na plataforma.

“Desde o início da minha carreira pude ver como juntas fazemos a força, fazemos a diferença, sabe?”, celebrou Iza. “É muito bonito ver um bando de projetos liderados por mulheres florescer e o mais legal disso tudo, desse momento de empoderamento, é ver como nós podemos nos ajudar. Como a gente tem limado coisas e feito coisas que antes era uma realidade muito constante em nossa vida, e ainda são como o assédio, por exemplo, mas a gente tem um poder de fazer com que essas coisas sejam notadas e discutidas e futuramente limadas, né?”, disse.

É sob essa ótica que Iza vê a importância de tantas mulheres no mainstream juntas, uma contribuição que vai além do boom na indústria. Há um poder de fala que estava calado e que explodiu como uma bomba. Hoje, as nossas artistas femininas continuam sendo criticadas, mas não tem medo de expor sua verdade – qualquer que ela seja. Veio então a importância da representatividade não só das mulheres, mas também de mulheres negras e integrantes da comunidade LGBTQ+ (que também será explorado em uma das pautas da série). “Uma das coisas mais lindas e positivas da minha geração é realmente querer se mostrar de verdade. Essa Era tecnológica deu para gente a oportunidade de expandir nosso trabalho. Nossxs artistxs brasileirxs são fodas e competentes. Já estava na hora do mundo prestar mais atenção na nossa arte e dar valor a ela”, celebrou Lellê.

“A gente vive um momento muito bacana”, pontuou Iza sobre debater não só a questão do feminismo em si, como a representatividade de um grupo sempre segregado simplesmente pela sua cor. “Quando a gente fala sobre empoderamento, sobre nos ajudar, a gente precisa ressaltar o quanto é importante entender como o movimento feminista é plural e que existem de nós que precisam de representantes, né? Precisam ser ouvidas, precisam ter suas particularidades ouvidas. Então por isso acho que o movimento negro dentro do feminismo é importante. A gente vive um momento muito lindo. Muito bonito a gente não se calar, escancarar aquilo desde sempre que a sociedade não tinha coragem de encarar como o racismo estrutural. Como nós mulheres negras sofremos muito”, nos disse.

Assim como Iza, vimos na última década o surgimento de outras artistas negras, mulheres, trans, drags e não-binários que colocaram o preconceito e racismo nas pautas das entrevistas, de igual pra igual, com mesmo peso e espaço. “Representatividade sempre importou e hoje vemos o efeito disso. É lindo quando inspiramos outras meninas negras com o nosso posicionamento, é lindo ver o que a Iza fez no palco do Rock in Rio com aquela menina linda, é lindo ver a Maju Coutinho sendo referência, lindo quando ouço meus amigos dizerem que ama a Malía. O grande valor da representatividade, além de representar alguém, é gerar oportunidades. Por isso agradeço as mulheres negras que vieram antes de nós e abriram a porta pra que pudéssemos estar aqui. E o nosso dever é dar continuidade isso”, celebrou Lellê.

Malía é uma das cantoras da nova geração que já nasceu sabendo o poder da comunicação através de suas redes sociais e não se intimida a trazer assuntos importantes para seus perfis. “Me sinto feliz por estar conquistando aos poucos um lugar de fala e mais feliz ainda por me permitir ter um pensamento crítico nesses espaços de visibilidade. O entretenimento é uma eficaz ferramenta para o questionamento e o desenvolvimento de tantos temas importantes pra nós enquanto sociedade e usar isso ao nosso favor, na minha opinião, é a coisa mais inteligente a se fazer”.

Com apenas um ano de carreira, Mc Rebecca também sabe que tem papel nesse debate e por mais que tenhamos avançado, há ainda muito a se conquistar. “Acredito que a gente precisa de mais números e mais conquistas. Sempre falo que quero ver mais mulheres negras em vários segmentos, como nas novelas, liderando empresas. Conquistando novos espaços, posições altas em paradas de música etc… a gente vai provando, cada vez mais, o nosso black power, saca? Não pode ter uma ou duas ou três na frente do game… temos que ter muitas mulheres negras no poder, tal como vem rolando nos Estados Unidos: Beyoncé, Rihanna, Janelle Monáe, Normani, Nicki Minaj, Lizzo etc”.

“Estamos numa fase muito bacana de reconhecimento! Temos artistas incríveis fazendo muito sucesso, e o apoio do público nos fortalece ainda mais. Acredito que estamos no caminho certo. Só queremos e lutamos por igualdade de gênero em um país e numa sociedade ainda muito machista”, avisou Luísa Sonza.

É hora de todo mundo entender de uma vez por todas: essas jovens cantoras não se calarão. O barulho só vai aumentar, quer você queira, se sinta confortável com isso ou não.

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