Foto: João Arraes
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ENTREVISTA: Urias disseca a raiva em seu álbum de estreia, “FÚRIA”

“Visceral” é a palavra que melhor define “Tanto Faz“, música que Urias escolheu para apresentar a segunda parte do seu álbum de estreia, “FÚRIA“, lançado nesta quinta-feira (13). Um dos trabalhos mais aguardados do ano, o disco é resultado de um processo de expurgo (e contemplação) do sentimento da raiva.

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Foto: João Arraes

Urias precisava dizer ao mundo que também sentia raiva e fez isso da melhor maneira – produzindo arte. Nas 13 faixas que compõem o projeto, ela desenha suas vivências e troca experiências com seus convidados ilustres – Vírus, Hodari, Charm Mone, Monna Brutal e Ebony.

Foto: João Arraes

Em entrevista ao POPline, a cantora explica que escolheu seus colaboradores com base no que ela acredita ser o futuro da música, mesmo que parte do seu público não entenda isso. “[São artistas] que, de alguma maneira, dividissem essa vivência comigo”, disse a artista mineira.

“Por exemplo, em ‘Pode Mandar‘, com o Vírus, eu chamei ele para o feat porque a música fala sobre uma pressa que a gente tem, porque a gente não sabe se vai morrer. Começa a acontecer alguma coisa boa e a gente tem pressa de querer tudo e querer agora. Eu, como uma mulher trans, preta, e ele, como um homem preto, a gente divide isso, sabe? (…) São sentimentos compartilhados”, continua.

Sobre os inúmeros pedidos de parcerias com artistas já populares, Urias adianta: “Eu não queria fazer colaborações, agora, nesse momento da minha carreira, com pessoas que já estão aí, entendeu? Eu queria vir com pessoas que, talvez, o público não conhecesse, que não imaginasse um feat junto”.

Ouça o álbum de estreia de Urias, “Fúria”:

As composições do disco são – majoritariamente – frutos da parceria de Urias com o cantor e compositor amazonense Number Teddie, conexão feita por meio do produtor Rodrigo Gorky, da Brabo Music.

As letras vieram a partir de chamadas de vídeo feitas via Zoom – ferramenta utilizada por conta da pandemia e da distância física, pois Teddie ainda morava em Manaus naquela época. “Ele botava o beat, ia falando as coisas, eu ia anotando. Mandava print das coisas, fotos do meu caderno. A gente ia conversando e, por exemplo, nos encontramos hoje pelo zoom, ficamos pirando nisso por uns dois dias e nos encontramos de novo para fechar tudo e ver o que sai”, detalhou a artista.

Sobre o processo de composição de Urias, Number Teddie define: “Eu acho a Uri uma grande compositora. Ela tem um cuidado e uma parada muito minuciosa na escrita dela que eu não vejo em quase ninguém. Ela é extremamente detalhista, ela é extremamente inteligente. É meio gênia, sabe?”, declarou o músico sobre a artista. “Ela tem uma visão muito bonita sobre as palavras e sobre a música em geral. Eu acho isso lindo. Eu realmente admiro e me inspiro muito nela em relação a isso“, complementou o compositor.

“Quando sentamos, eu e ela, meio que acabamos as coisas muito rápido. As vezes, obviamente, a gente fica matutando muito, tem músicas que a gente tem dificuldade em partes muito especificas porque a Urias é muito específica. Ela sabe exatamente o que ela quer falar e o jeito que ela quer falar” – Number Teddie sobre Urias.

Foto: João Arraes

Urias explica que, em algumas músicas, suas colaborações também participaram do processo criativo, como aconteceu com a cantora Charm Mone, em “Classic“. “Eu quis trazer alguém que entendesse o que eu estava falando enquanto essa vivência, nesse meu lado não-cis – colocar em palavras, colocar de um jeito que só as gatas iam entender. Tem coisa que tem que só a gente vai entender. Não são grandes coisas, mas são miminhos pra elas“, contou a artista.

Pouco menos da metade do disco era conhecido do público. Cinco faixas foram lançadas em maio de 2021, entre elas a música “Foi Mal“, que se tornou um sucesso para a surpresa da cantora. “Eu não achava que minha música ia tocar na rádio. Eu faço uma música que é tudo uns barulho doido. É muito louco ver como as pessoas se identificam com o seu trabalho“, disse Urias.

Foto: João Arraes

Assim como em “Foi Mal“, em “Tanto Faz“, Urias parece encontrar novas formas de usar a sua voz. Os versos rasgados entregam uma performance vocal inédita aos fãs da artista. “Quem me direcionou para gravar os vocais foi o Timbó, eu falei para ela ‘queria uma coisa que representasse um sentimento que crescesse. Eu começo meio calminha e, de acordo com a letra da música, eu não vou sendo ouvida, e vou me desesperando mais. Eu queria que ela terminasse de uma maneira visceral, tentando ser ouvida ao máximo“, detalhou a cantora.

“Essa música eu tenho escrito a muito tempo, desde antes da pandemia. Eu e a Kika Boom escrevemos ela e eu acho que muita gente vai se identificar. É uma música mais pra baixo. Eu quis vir diferente, quis vir numa vibe instrumentos. Vamos de rock, bebê”, brincou Urias ao definir sua nova aposta

Ouça “Tanto Faz”, novo single de Urias que ganhará um clipe nesta sexta-feira (14):

Fúria: a estética da raiva

Diferente de seus trabalhos anteriores, em que a estética ditava os caminhos do projeto, Urias definiu o tema do seu álbum antes de todo o resto. “Quando eu decidi que ia ser [sobre a] raiva, eu comecei a pensar em símbolos“, destaca a cantora.

“Ao falar da raiva, eu queria vir com essa proposta de que eu sou gente, de que eu sinto. É aquilo que você falou, do [meme] do LGBT trambiqueiro, de que eu não sinto só tristeza, ‘ai, que dó’. Isso tudo me gera muita raiva e eu queria falar sobre isso”

Cada single de “FÚRIA” foi representado por um animal, liderados por um Touro que ilustra a capa do disco. “Eu comecei a pensar no que imageticamente podia representar essa raiva. E foi aí que me veio a ideia do touro, pelo o que ele significa e tal”, disse Urias sobre a escolha da capa do álbum. “Eu queria que as pessoas olhassem e interpretassem de várias maneiras”, explica a cantora a respeito das cores preta e branca, usadas nas imagens fotografadas por João Arraes.

“O rolê de ser um touro, de ser meu signo, de eu estar tranquila em cima do Touro. Por dentro existe a fúria do touro, mas por fora quem está no controle sou eu. Para mim, esse álbum significa muito que eu consegui pegar muita raiva que eu passei em situações em que eu não tinha nada a ver com isso – situações, no geral, na vida pessoal, no social, em questões de ascensão profissional. Peguei essa raiva e fiz algo muito produtivo com ela. Poderia simplesmente só passar raiva e ficar com a pele feia…”

João Arraes

Inspirada no cinema noir, a artista sempre buscou trouxe elementos das personagens Femme Fatale. “Sou jovem, sou bonita, tenho um c*zão…Eu vou botar pra jogo, entendeu? É Brasil“, brincou. “Todo artista tem essa fase de estar super confiante e de estar se botando acima de várias coisas de que ela não é vista acima“, complementa.

A raiva manifestada

Na última semana, Urias liberou um interlúdio que faz parte da tracklist do álbum. Em um áudio enviado a uma amiga, a cantora fala reflete sobre a valorização do trabalho de pessoas trans e negras quando comparado ao de pessoas cis e brancas. O áudio foi um pedido do produtor Gorky, mas, de fato, existiu. “Talvez possa soar presunçoso, mas é o que eu acho de verdade”, disse a artista ao enviar o arquivo.

Sobre o áudio, ela explica: “A qualidade do meu trabalho é muito acima do que muita coisa e eu não tenho o reconhecimento que eu teria se eu fosse branca ou cis ou os dois. É uma realidade que sempre me bate de frente e independe de mim. Eu só posso realmente passar raiva com isso, não posso fazer muita coisa para mudar…agora“.

Foto: João Arraes

“A gente está construindo um futuro diferente para a gente, mas é um futuro. Talvez eu não veja coisas que eu sonhei acontecerem, mas eu preciso fazer com que elas aconteçam agora”, continua. “E, por isso, eu falo no áudio ‘é aí que a raiva me pega muito’. Na indústria, a gente meio que vê isso…”

“Não só pessoas que são trans, mas que são de minorias diversas, você vê que o trabalho das pessoas não chega aonde tem que chegar por conta dessa opressão que é muito sistemática, vai muito além de ‘aí, não aparece na televisão, não tem seguidores’, vai muito além disso, é muito mais embaixo o buraco”, Urias.

Confira o áudio:  

É difícil categorizar a sonoridade de “Fúria”. O disco transita com naturalidade entre o trap e o pop alternativo com inserções de baladas indispensáveis – como o single atual, uma hino da solidão. Fato é que tanto “Fúria” quanto sua autora e intérprete pavimentam um lugar singular na música pop nacional e constituem uma obra autobiográfica e verdadeira, mas que traduz a vivência de muitas pessoas. Como definiu Number Teddie, um dos compositores do álbum: “É um disco que só Urias seria capaz de fazer”.

Escrito por Douglas Françoza

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