in ,

Entrevista: Lulu Santos apresenta álbum com músicas de Rita Lee e opina sobre o pop atual

Recém-lançado, “Baby Baby” é o 27º álbum da carreira do cantor, compositor e músico Lulu Santos. Desta vez, ele gravou apenas músicas do famoso repertório de Rita Lee, seu ídolo. Estão lá “Baila Comigo”, “Ovelha Negra”, “Agora Só Falta Você” e tudo o mais. É uma homenagem, que agradou Rita e a crítica especializada.

Veterano do pop nacional, Lulu renova seu público geração a geração – com reforço do “The Voice” há cinco anos – e agora proporciona também uma espécie de serviço: a revitalização de músicas icônicas. Depois de um álbum com canções de Roberto e Erasmo Carlos, o cantor introduz para uma nova audiência os clássicos de Rita Lee, que curte uma espécie de aposentadoria musical. Para falar sobre o disco e muito mais, Lulu Santos concedeu uma entrevista ao POPline. Confira!

Qual o feedback que você teve da Rita Lee?
Eu fiz o disco porque eles deixaram, num certo sentido. Logo que acabei de ler a biografia dela, que me ascendeu a vontade de fazer isso, minha primeira atitude foi mandar um zap para o Beto Lee [filho da Rita]: “olha, está me ocorrendo essa vontade, dá para falar com sua mãe e seu pai se tudo bem, se eles não têm nenhuma restrição?”. Imediatamente, o Roberto [de Carvalho] respondeu que eu era muito bem vindo a fazer, que eles tinham muito carinho por mim, coisa e tal. Eu fiquei seis meses pré-produzindo esse disco, em vários estágios, e eu mandava para o Roberto cada vez que eu finalizava alguma coisa, e ele mostrava para a Rita. Então, na realidade, eles acompanharam a feitura desse álbum durante seis, quase sete meses. Quando tinha o álbum finalmente finalizado, mandei tudo para eles, e eles fizeram uma grande audição em família. Eles me disseram que amaram. Depois, a Rita me fez o favor de colocar no Facebook dela uma mensagem supercarinhosa. Ela me mandou vários recados de voz supercarinhosos. Tenho muita saudade dela. Gosto muito dela, e a gente se vê pouco. Foi um pouco por isso que fiz o álbum também: é uma coisa feita do ponto de vista mítico mesmo, do fã, daquele que vê de uma forma mítica.

O que mais te interessa nessas composições todas?
São composições inacreditáveis. Tem um aspecto de greatest hits, né? São poucas as composições desse disco que não foram um grande sucesso. Ela escreve uma história de sucesso popular no Brasil de uma forma muito marcante. Foi muito marcante para mim. Posso te dizer que a Rita Lee é a artista brasileira, entre seus parceiros, no caso o Roberto, de quem eu sei de cor mais letras de músicas. Eu sei letras do Caetano, do Gil, algumas do Chico, do Milton, mas a obra… eu conheço a obra da Rita. Tem essa tinta pop que nos une. Desde os Mutantes até o último disco da Rita, eu tive todos esses álbuns. Eu sou um fã, sabe como é?

Tem alguma música que seja mais marcante para sua vida?
Acho que talvez “Fuga nº2” [dos Mutantes]. É a mais antiga. É de 67. Lendo o livro, às vezes eu tinha a impressão de estar lendo a minha vida ao avesso, porque ela fala ali especificamente, precisamente, o que estava fazendo, como estava seu estado mental, quando fez cada uma das canções. Por outro lado, em reflexão, quando acabei de ler o livro, comecei a lembrar minha vida própria vida e o que estava fazendo, sentindo ou pensando durante aquele tempo todo. Eu comprei os oito álbuns dos Mutantes! Durante nove anos da minha adolescência, eu estava influenciado por aquilo. Depois, comprei todos os da Rita. “Fuga nº2” é a mais antiga, a mais recôndita, talvez a menos conhecida do álbum, e foi a canção que singularizou a Rita nos Mutantes, para mim. Essa música é dela, quem canta é ela, numa voz feminina, tem essa fragilidade.

Foto: Leo Aversa – Crédito obrigatório.

De que modo você acredita que esse repertório de 12 faixas se comunica com o mundo atual, tanto tempo depois das gravações originais?
Algumas das canções parecem que foram feitas ontem, como “Alô! Alô! Marciano”, por exemplo. É a degradação do mundo de hoje em dia. Ela estava sendo profética em certo sentido. Cantar essa música hoje em dia faz todo sentido. E outra canção, mais recente, do milênio mesmo, que é “Paradise Brasil”: é impressionante como aquilo é uma descrição das nossas mazelas ou talvez do jeito que a gente finge que elas não existem para viver um ideal paradisíaco tropical, que só existe na cabeça de quem não mora aqui, entendeu? Ao mesmo tempo, por outro lado, algumas outras, como “Agora Só Falta Você”, uma canção de ruptura, de mudança, é o discurso que me parece que está faltando um pouco na música pop hoje em dia. A atualidade das músicas é incontestável. Afora as que já são tão clássicas, que a qualquer momento suscitam pelo menos a memória, como “Desculpa o Auê”, “Baila Comigo”, “Ovelha Negra”, essas coisas assim.

Em “Agora Só Falta Você”, você imprimiu batida de funk na música. O gênero, até bem pouco tempo, estava na mira de um projeto de lei malicioso para criminalizá-lo. Qual sua opinião sobre isso?
(risos) Minha opinião é que isso é ridículo! Você criminalizar a arte só mesmo em um país persercutório e fascista. Como não somos assim, não acredito que isso vá para frente.

Já saíram algumas críticas sobre o álbum – as que vi muito positivas. Você gosta de ler as críticas?
Eu claro que tomo conhecimento. Não posso deixar de saber a opinião dos outros. A gente faz isso por impulso, pulsão, compulsão, vontade, prazer, mas faz para os outros, né? Então, me importa sim saber como os outros pensam, como os outros leem. Às vezes eu concordo, às vezes eu discordo. Eu consigo discordar de um elogio também.

Ah, é?
É! Já me aconteceu.

Antes do “Baby Baby”, você também fez o “Lulu Canta & Toca Roberto e Erasmo”, outra coletânea de releituras. Há mais algum artista que você gostaria de dedicar um álbum completo?
Hum… Programaticamente na lista, não. (risos) Não é como… Bem, os dois álbuns têm motivações muito diferentes. O do Roberto e Erasmo foi uma espécie de encomenda. Na época, a Associação do Banco do Brasil estava fazendo um programa de espetáculos em que Bethânia cantava Chico, Sandy fazia Michael Jackson e eu fazia Roberto e Erasmo. Na realidade, eles tinham me pedido para fazer Beatles e eu achei que não fazia sentido. Propus Roberto e Erasmo, como uma forma de memória, pesquisa, o que fosse. Fiz de uma forma mais estética. Tentei colocar no álbum todo R&B do sul dos Estados Unidos da década de 60. Tem essa teoria engraçada. É verdade: quando Erasmo Carlos estava compondo aqui no Brasil “Fama de Mau”, no início da década de 60, ele não tinha ouvido ainda a invasão britânica – Beatles e Rolling Stones. Ele fazia aquilo porque ouvia os discos originais dos americanos. Tentei fazer um álbum imprimindo essa estética R&B. Foi um processo todo estético. O processo do álbum da Rita foi mais apaixonado. É de fã, é mais afetivo, e há mais proximidade… Acho até que é um contínuo entre a produção e a carreira da Rita e a minha, dentro do pop brasileiro. Se é que não estou me hipervalorizando!

Claro que não!
A gente sempre corre o risco! (risos)

Hoje em dia, não se vende álbuns como antigamente e muitos artistas optam por gravar e lançar apenas singles. O que te motiva a entrar em estúdio para criar um disco inteiro, durante tantos meses?
Provavelmente, porque não sei fazer de outra forma… e me interessava a lista de canções. A ideia do álbum me interessa. Eu fiz um álbum chamado “Longplay”, de tanto tesão que eu tenho pelo formato. Eu compreendo que as leis do mercado ditam outra coisa, mas também acho que de vez em quando um álbum, um LP, surpreende porque é uma coleção e não uma coisa isolada. Eu tenho muito confiança no álbum que fiz e, sobretudo, porque acho que tenho um público que ainda se interessa por álbum, por comprar a coisa física e não apenas o download, o stream, de uma faixa. Para quem for desse feitio de formato, ok, também temos tudo isso. Como se diz, “está disponível em todas as plataformas digitais”. (risos) Em todos os formatos!

Você tem preferência de formato – CD, vinil, digital, stream….?
É engraçado, porque agora eu tive que aprender que você tem que masterizar o disco de uma maneira diferente para cada uma das plataformas. A masterização do CD não serve para o iTunes e a do iTunes não serve para o Spotify. Então são três especificações diferentes. Se você vai cortar o álbum, que é uma coisa que futuramente… (se interrompe) Eu não me vejo fazendo muitos mais álbuns no futuro, de qualquer forma, então acho que, com o passar do tempo, cada uma dessas produções vai ficando uma cápsula de seu tempo, de sua era, e de seu alcance. Deixo isso aí como um volume. Você tem o tempo todo do mundo para se interessar por ele.

Falando em álbuns, o que você tem ouvido mais ultimamente?
Pois é. Eu parei de ouvir música quando comecei a fazer esse disco, porque realmente não consigo fazer as duas coisas. A cabeça fica tão ocupada pelo que estou fazendo… Acho que as duas últimas coisas que ouvi, antes de entrar no estúdio, foram os últimos discos do Kendrick Lamar e do Jay Z – o “4:44”. Mas, nos últimos dois anos, andei muito impressionado com o “Lemonade”. Acho aquilo uma obra muito fechada, muito rica, muito interessante, e eu fiquei quase um ano ouvindo o disco da Beyoncé. Todos os produtores, tudo que ela conseguiu abarcar, todas as intenções que ela colocou, aquilo me ensinou… Acho que, de uns tempos para cá, “Lemonade” se tornou o modelo de como fazer um álbum contemporâneo. Por isso também que eu envolvi tantas pessoas de fora – como o Silva para fazer “Ovelha Negra”, o Marcelinho da Lua, o Menescal para “Alô Alô Marciano!”, o Memê… não poderia ser outra pessoa para fazer o house do “Paradise Brasil”. E também me consultando o tempo todo com Sanny Pitbul, que é o meu maestro do funk. Foi no estúdio dele que fiz a primeira demo de “Agora Só Falta Você”, ainda que a bateria eletrônica tenha sido programada por mim.

O Sanny vai lançar uma coletânea das suas músicas regravadas por funkeiros, não é isso?
É verdade! Vai sair no início de 2018! Isso está me dando uma alegria enorme!

Você já teve acesso a algo?
Tive acesso a tudo! Da mesma forma que fiz com a Rita e o Roberto, ele me manda todos os estágios de tudo que está fazendo. A escolha do repertório, os arranjos, as gravações, tudo é dele. Eu nunca estive em uma gravação, mas ouvi todos os estágios de tudo que ele me mandou. Muitas vezes, aconselhei a isso ou aquilo. A gente tem uma relação muito aberta, muito proveitosa, e estou completamente de acordo com o projeto. Já ouvi quase todas as faixas.

Tem alguma favorita?
Tenho! A regravação do Naldo Benny para “Eu Não”, minha e do Nelson Motta, ficou uma coisa inacreditável. A Tati Quebra-Barraco fazendo “Chega de Dogma” (risos)… deu outra leitura, potencializou o discurso de uma forma que eu fiquei… Tem até uma história engraçada, porque “Chega de Dogma” só tem isso de letra: “Chega de dogma, chega de dogma, do, do, dog, ma, ma, ma”. Quando a Tati olhou a letra, ela falou com o Sanny: “poxa, você tá de sacanagem comigo? Tem uma porção de letra bonita e tu vai me mandar falar isso?” (risos). O Sanny olhou para ela e perguntou “você sabe o que é dogma?”, e ela disse que não, aí ele falou “vamos olhar no Google”. A partir daí, ela entendeu o conceito de dogma e mandou o texto lá que é dela. Musicalmente, a do Naldo ficou potente, com cara de single, e a gravação da Tati ficou incrível. Mas também tem Valesca, Pocahontas, Mc Cacau, Marcinho, Bob Rum, Buchecha, Leozinho… É uma coisa de funk old school muito legal. Estou encantado com o projeto. Falo sempre dele.

Com relação aos shows… Você tinha anunciado um ano sabático, só com o “The Voice”, mas lançou esse álbum. Vai fazer uma turnê com esse repertório?
O ano sabático era uma pausa de show mesmo. Agora, com esse álbum, a gente estreia o novo show em 14 de abril de 2018 no Rio de Janeiro.

Vai ficar um tempo com essa turnê?
O tempo que der alegria!

Vamos falar sobre música pop. Você é um veterano no Brasil. O que acha da nova geração do pop nacional?
Acho perfeitamente de acordo com o que o Brasil precisa. Esse empuxo do sertanejo é completamente justificável, não só porque eles acharam um formato que agrada e serve aos interesses e anseios dos brasileiros de uma forma geral, sobretudo com o fato daquilo servir para dançar, servir para ir para a noite. Isso desfaz um engano, que perdurou durante muito tempo no Brasil, de que cultura brasileira é aquilo que se produz em uma faixa litorânea do Sudeste, sabe como é que é? Depois, foi incluindo o Nordeste, quase como um favor, mas nem tanto, porque logo vieram Caetano, Gil, os outros nordestinos, Zé Ramalho… Mas o interior nunca teve uma representação muito clara e, se tinha, era vista como uma coisa menor. Eles impuseram, com a força de alguém embasado em uma cultura e vontade popular. A história do pop brasileiro é de ciclos de 10, 15, 20 anos. Foi o pop/rock nas décadas de 80 e 90, depois veio colada uma década de axé até 2000 e pouco, parecia que tudo era axé e micareta. Em seguida, começou a se firmar o sertanejo. O sertanejo tradicional sempre esteve aí, sempre teve seu espaço, e agora essa parte mais pop. Um sertanejo pop. Outro dia, meu colega de trabalho, Michel Teló, fazendo a caracterização de um candidato no “The Voice”, falou: “você é uma legítima representante do pop, do pop que não e rock”. Achei interessante ele fazer essa leitura. Nem todo pop é rock, nem todo rock é pop, mas o rock era pop.

Nesse contexto, você tem nomes favoritos?
Gosto de Anitta, de Ludmilla, de Nego do Borel, gosto de quem faz essa música. A Anitta tem um desenho pessoal de vencedora, né? É uma mulher brasileira que resolveu vencer nos próprios termos. Só isso já é admirável. As escolhas que ela faz! O single da Anitta com Pabllo Vittar, feito por Diplo, é uma coisa de nível internacional. Eu sempre achei que o funk brasileiro era uma forma de representação de música eletrônica, de dança, de noite, compatível com a melhor de qualquer lugar do planeta. E agora isso está ficando claro em qualquer lugar do planeta. Sempre achei que ia chegar a hora do funk para o mundo, e pode ser que Anitta seja a ponta disso.

A aposta é essa, né?
A aposta dela é essa, porque ela está indo muito bem.

Foto: Leo Aversa

Que conselho você daria para alguém que está começando, seja gravando vídeos para Internet, fazendo shows em barzinhos, ou tentando entrar no “The Voice”?
Muito sinceramente, não é uma pessoa da minha idade que tem que dar conselho para uma pessoa que está começando, não. Eu estou sendo muito franco com você. Não é malcriação, não. Essa pessoa que vai dizer como as coisas vão se processar daqui para frente. Tem sido assim.

Para terminar, um recadinho para o POPline!
Eu tenho o maior orgulho de, praticamente 40 anos depois de ter começado minha carreira, estar falando com quem está levando a linguagem do pop para o futuro. Neste caso, é o POPline. POPline é a nossa linha. ‘Tamo junto’!

Escrito por Leonardo Torres

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Diplo insinua que popularidade de Taylor Swift é forjada por grandes orçamentos de marketing

“Fiesta Latina”: Camila Cabello faz performances de “Havana” e “OMG”