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Entrevista: Lia Clark fala sobre polêmica envolvendo o clipe de “Boquetáxi”, discute seu papel na arte LGBT e fala do 1º álbum

Oi Lia, tudo bom? A gente até pode tentar começar a falar sobre um outro tema, mas não dá! Que semana foi aquela?!
Nossa, tudo aconteceu!

Mas agora passou.
É porque você não tem noção do trabalho que esse videoclipe deu por trás das câmeras. Se eu te contar, você não acredita! Mas agora está tudo certo.

E com esse trabalhão todo, ver o trabalho sumir, deve bater um desespero.
Não, nem me fala! Nem me fala, nem me fala. E o clipe tinha acabado de ficar em primeiro lugar dos mais assistidos, a gente estava começando a comemorar e rolou esse balde de água fria na gente.

Foi uma surpresa para você o bloqueio de restrição de idade do “Boquetáxi”?
Ah foi, foi sim! Porque a gente estudou muito os clipes de funk em um geral justamente para não cair nessa. Eu já sabia do conceito do clipe então eu não queria extravazar também para dar motivo então a gente meio que se baseou em vários dos clipes do Youtube que já estão no ar sem censura. E tivemos aquele ataque de denúncias.

E não tem como escapar daquele pensamento que não possa ter sido uma retaliação. Como você comentou nas redes sociais.
Não quero citar nome de artistas porque não tenho a ver com a arte do outro, mas eu só quis deixar isso explícito porque é um ataque ao LGBT mesmo, porque foi com uma drag queen que aconteceu isso. Se fosse um macho falando, os héteros achariam o máximo porque o cara é um f**dão. Mas Graças a Deus eu recebi muito apoio de fãs e de pessoas que não me conheciam que viram que foi realmente uma injustiça, me apoiaram até o fim e foi desbloqueado.

Há dois lados dessa história: a arte feita pelos artistas LGBT está mais aberta ao grande público, de aceitação, mas ainda temos um longo caminho a percorrer.
A gente ainda está em um processo. Estamos neste movimento inteiro, não só eu como também outros artistas, estamos nessa crescente, mas ainda temos que lutar muito para subir de verdade. Querendo ou não o que aconteceu comigo é uma demonstração do que a gente ainda precisa lutar para conquistar o nosso espaço.

Se você soubesse que iria essa confusão toda, teria mudado algo?
Jamais! Eu acho que estaria mais ansiosa de lançar para causar essa reviravolta e abrir os olhos de muita gente, como aconteceu. Muita gente se conscientizou, me mandou mensagem dizendo que acharam que o que houve foi pesado, mas infelizmente é uma coisa comum dentro do Youtube.

Até iria perguntar que saldo você tirou dessa polêmica, mas acho que expandir o trabalho como você disse é um retorno muito positivo.
Acho que o saldo foi a força e o apoio que eu recebi. Eu não imaginava que eu tinha tanto apoio assim.

Não? Não tinha ideia?
Não… eu não achava que tinha tanta gente me apoiando assim. Fiquei muito feliz e agradeço a todos do fundo do meu coração.

Quando escreveu aquela nota no Instagram, você fez um importante discurso sobre a pressão para se “enquadrar aos padrões de higienização impostos pelos opressores”. Seu trabalho, com letras ousadas e clipes polêmicos bate de frente nisso. Você pensa nisso conscientemente ou é algo natural?
Sendo sincero, quando eu fiz minhas primeiras músicas eu não tinha essa consciência “vou lá, vou bater de frente, vou mostrar pra eles que a gente pode”. Eu fiz mesmo por pura diversão, para entreter as pessoas e quando essa visibilidade foi aumentando eu fui aprendendo. Fui aprendendo nesse processo como é fazer parte desse trabalho de ocupar esse espaço nesse estilo musical, vamos dizer assim, vangloriado pelos héteros. É o que falo: “essa bicha também pode fazer funk”! Foi o que eu aprendi com meu trabalho é isso, a gente pode e que cada mais venham mais bichas cantando funk. (risos)

Você falou sobre as críticas recebidas por pessoas também LGBT. Te incomoda mais do que o restante das críticas que você recebe?
Não me incomoda… Assim, tenho total noção que ninguém é obrigado a gostar de nada. Eu faço meu trabalho, não gostou… fechou! Tudo bem! Mas acho que o que me incomoda é as pessoas querendo confabular, inventar coisas nas cabeças delas dizendo que se eu faço isso, aquilo, que todos os LGBT agem da mesma forma.

Os rótulos!
Isso! Me rotular! Nada a ver. Eu sou uma pessoa, estou fazendo meu trabalho e todo o restante da comunidade é um outro pessoal. Não gosto quando se sentem ofendidos com temática de putaria por minha causa!

Isso era outra pergunta. Muitos te rotulam mesmo de apelativa. Você se considera apelativa?
Para ser sincera, acho meu trabalho, no caso a palavra que o descreve é uma mistura: funk e humor. Eu recebi recebi uma vez uma mensagem de uma fã descrevendo o que eu faço é um “cômico sexy”. Não é 100% putaria, mas é engraçado, eu acho.

Vai manter a linha de trabalho?
Jamais vou sair da minha identidade, mas para meus próximos projetos quero abrir os meus horizontes, fazer coisas diferentes também. Tô trabalhando muito para isso, para o meu primeiro álbum vir legal, com uma grande variedade de músicas, mas não vou fugir do funk.

Você falou que o clipe “Boquetáxi” deu um trabalhão e você fez roteiro e dirigiu. Conta mais sobre a produção!
Em todos os meus clipes, eu e meus amigos sempre sentamos e começamos a conversar. “Vai, o que vamos fazer?”. Todo mundo dá ideias e montamos o roteiro. E todos os meus vídeos tem coisas escondidas, pequenas mensagens, detalhes, acho que são coisas que os meus fãs que me acompanham ficam esperando para tentar identificar. É muito da minha personalidade. Esse processo criativo é uma das coisas que eu mais gosto de fazer de todo o processo que envolve uma carreira musical tanto que em “Boquetáxi” fiz questão de fazer o roteiro, de estar na co-direção.

E foi seu clipe mais bem produzido até agora.
Sim, nossa! A gente montou um cenário enorme.  Vamos ainda vai lançar um diário de bastidores e acho que as pessoas não tem noção do trabalho que dá para o clipe ser feito! Por exemplo, o cenário foi todo montado do zero, não é uma casa aquilo.

“Boquetáxi” foi recentemente lançado, você ainda vai liberar os bastidores como disse, mas você já olhando mais a frente?
Estamos em contatos para fazer novas parcerias, pensando em novas batidas, vendo letras, procurando outros compositores e produtores porque esse meu primeiro EP basicamente foi apenas eu e o Pedro (Lima), dentro de uma sala trocando ideia. Agora a gente quer abrir os horizontes, ver outras pessoas para a gente colaborar, artistas e como falei, buscar outros ritmos.

O funk é a sua raiz, mas o que você pode dizer que também te influencia?
Estou ouvindo pop nacional! CD da Ludmilla, da Manu Gavassi, da Pabllo Vittar… gosto demais! Gosto muito de rap internacional, dessa onda de reggaeton que está aí, do espanhol meio “Paradinha”, meio Maluma, então a gente está vendo toda essa mistura para ficar algo bem legal.

Interessante que a primeira resposta geralmente quando a gente pergunta sobre o que um artista está ouvindo é algo internacional e você está ouvindo gente prata da casa.
E eu confesso que se você tivesse me feito esta pergunta há uns dois anos eu também responderia música internacional, mas o trabalho do pop nacional está tão rico hoje em dia que não tem como ignorar. Espero que isso continue! Acho que as pessoas precisam ter uma cabeça mais aberta para essa questão da música porque muitas ficam fixadas no internacional. A gente sabe que a produção deles é mais trabalhada, mas a gente tem muita coisa boa aqui no Brasil mesmo e as pessoas não dão chance. Elas não sabem como são bons porque simplesmente não escutam. É como a Anitta fala “o povo aqui não consome CD, consome o single que passa da televisão e na rádio”. Se as pessoas assimilassem o álbum inteiro de um artista… acho que tínhamos que dar essa chance porque temos muita gente boa.

Lia, obrigada. A gente te deseja toda a sorte porque a bandeira que você, Pabllo Vittar e outros artistas estão levantando é importante e é triste saber que vocês ainda vão levar muita pancada para fazer valer a sua voz.
Nossa, obrigada, ainda vamos levar muito, muito mesmo! Eu não tinha noção disso tudo. Fui aprendendo com esse processo de lançar música, videoclipe e ser atacada. E mostrar para o pessoal que não é bem assim que funciona. Acho que esse processo, para mim, além de ajudar a conscientizar muita gente, me auto conscientizou também. Eu vou continuar e que estejamos cada vez mais fortes.

Escrito por Amanda Faia

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