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Leonardo Torres

Coluna do Leonardo Torres: Cancelo, logo existo

O cancelamento, em resumo, é um boicote em resposta ao mau comportamento de uma figura pública. Se é um cantor, você deixa de ouvir suas músicas e ir aos seus shows.

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(Fotos: Instagram)

Meu texto de semana passada esbarrou no tópico do cancelamento, e decidi desdobrá-lo em uma coluna só para isso. Coincidentemente, faz pouco tempo que entrevistei Gloria Groove e tocamos neste assunto também. Ela é contra a “cultura do cancelamento”, e ela me parece sensata o suficiente para eu levar sua posição em consideração. Outro dia, também, li uma entrevista da Halsey na Austrália, dizendo que morre de medo de ser “cancelada”. “Quando eu comecei, minha equipe não entendia isso. Havia uma resposta negativa por algo que eu tinha dito e eu ficava ‘é isso, acabou para mim’. E todos falavam ‘relaxa, você não vai perder a carreira por algo que disse na Internet’. Agora é ‘sim, você realmente pode perder tudo’”, disse a americana.

O cancelamento, em resumo, é um boicote em resposta ao mau comportamento de uma figura pública. Se é um cantor, você deixa de ouvir suas músicas e ir aos seus shows. Um ator, você deixa de ver seus filmes, séries e novelas. É uma espécie de punição do público, organizada quase sempre pela Internet, para mostrar indignação e revolta. Alguns podem acreditar que, além disso, só assim essas pessoas mudarão – sentindo a perda no bolso. A lista de “cancelados” é grande e inclui nomes como Biel (acusado de assédio e agressão), Nego do Borel (transfobia) e MC Gui (bullying com criança), para citar três casos bem sucedidos de boicote do público. A vida deles virou de cabeça pra baixo depois que erraram grosseiramente. Eles perderam contratos, tiveram que literalmente cancelar lançamentos previstos, e passaram a ser evitados por outros artistas. Quem se lembra de quando Anitta teve que se desculpar por deixar Nego, seu amigo pessoal, subir no palco de um show? O público vaiou e as vaias eram tanto para ele quanto para ela, por insistir. O cancelamento é rígido. Aliás, já tentaram cancelá-la mais vezes do que cabe em uma mão, mas por enquanto Anitta segue imune.

Fala-se em “cultura do cancelamento”. Pesquisei sobre e li um bocado. Tratam como algo exclusivo de nossa era, fruto de uma geração que cresceu no mundo dos realities shows. Vem da ideia de paredão. O confinado do “BBB” comete um erro, o público julga, vota e o elimina. Uma vez eliminado, o odiado está fora do alcance das vistas. Não existe mais. A “cultura do cancelamento” é basicamente trazer esse mesmo modus operanti para um panorama mais amplo da vida: eliminar quem erra. Não me parece algo novo. É, na verdade, uma cultura do julgamento, e isso é mais velho do que nossos avós. Mulheres eram marginalizadas se aparecessem grávidas fora de um relacionamento. Ou caso se divorciassem. Eram os “erros” da época. Não seguir uma cartilha cristã também levou uma galera para a fogueira. Cada época e cada cultura com seus erros – e seus “cancelamentos”. É óbvio que apontar o dedo para os erros e defeitos do outro faz a gente se sentir melhor (o bullying nasce disso, não é?). Dá a sensação de guardião da moral e da ética. Fora a sensação de pertencimento. A gente acredita que está “do lado certo”, e isso é gostosinho.

Não vou ser hipócrita: não acho o cancelamento de todo mal. Não vejo por que continuar batendo palma para quem é racista, homofóbico, transfóbico, misógino, violento ou criminoso, como se nada tivesse acontecido. Eu não quero pessoas assim na minha vida, então é natural que também não me interesse por artistas assim. Claro que ninguém nasce desconstruído e que traçar uma biografia coerente e límpida, escrita ao vivo e em público, não é fácil. “Não poder errar” pasteuriza e artificializa muitos artistas (há algo menos genuíno que os pedidos de desculpas de quem acabou de fazer uma cagada e está sendo criticado por isso?). Mas o medo que Halsey sente a faz pensar antes de falar e agir. Não acho isso ruim. Não digo por ela, mas quem é preconceituoso e intolerante deve mesmo pensar antes de falar ou agir – nem que seja para não sofrer represália. Eu tenho 30 anos, assim como a lei que criminaliza o racismo no Brasil. Na minha infância, enquanto a lei não tinha “pegado” ainda, era comum ouvir comentários preconceituosos sem qualquer pudor. Com o medo da prisão, as pessoas deixaram de falar bosta em público. Não acredito que mudaram de mentalidade, mas pelo menos de comportamento, e isso já é algo. Por isso, acredito que a “cultura do cancelamento” é temporária: ela é também uma maneira de minorias se imporem e mostrarem que não aceitam mais conviver com absurdos. Uma espécie de tribunal popular. Você antes não pagava por sua discriminação, agora você paga. Discordo quando Duda Beat diz que o “cancelamento é uma forma de ditadura”, porque silencia alguém. Na verdade, não. O “cancelado” (esse termo é péssimo!) pode falar o que quiser, eu só não preciso estar na plateia ouvindo.

Há cancelamentos e cancelamentos, claro. O linchamento virtual – assim como o linchamento presencial – não é construtivo, tampouco instrutivo. Na verdade, não passa de agressão e, se você vai até a página de alguém xingá-la e ofendê-la, acreditando no direito de revanche, você também merece ser canceladx. A gente precisa ser responsável com o que fala para os outros. Palavras violentas não podem ser rebatidas com mais palavras violentas. Pessoas erradas – ou melhor – pessoas que cometeram erros também merecem respeito. Não considero cancelamento sinônimo de linchamento: denotam atitudes diferentes. Podem acontecer juntas, mas não deveriam. Não sou favorável. “Quando você diz que alguém está cancelado, não é um programa de TV. É um ser humano. Você está mandando massagens massivas para essa pessoa se calar, desaparecer ou, você também pode entender assim, se matar”, Taylor Swift disse à revista Vogue. Obviamente, isso é nocivo. Ninguém precisa ser maltratado para você expor sua indignação. Há maneiras mais eficazes de fazer isso – deixar de consumir, simplesmente.

Quando peguntei sobre o tema à Gloria Groove, ela me disse: “bater a cabeça e expelir as pessoas para fora de um raciocínio nunca resolveu nada. Só como representante que fui entender essa diplomacia do diálogo. Peraí, vamos conversar, vamos entender o que está acontecendo”. Concordo com a parte do diálogo e acredito que você pode tentar dialogar antes de cancelar. Ou cancelar dialogando. Ao mesmo tempo que posso dar unfollow em alguém, posso deixar uma dica de bibliografia para essa pessoa se instruir sobre o assunto que errou. Mas definitivamente não vou estar aqui dando stream enquanto espero ver se ela evolui ou não, se fere minha existência ou meus valores. Escolher o que consumir é um direito de qualquer cidadão, respeitar os outros é um dever. Então, não ao linchamento. Sim, as pessoas podem evoluir. Em geral, é o que se espera. A gente erra para poder aprender. Um erro deve ser contextualizado antes de qualquer sentença.

Justin Bieber, por exemplo. Há cinco anos, o site do jornal The Sun divulgou um vídeo do cantor fazendo uma piada (horrível) racista. O vídeo havia sido gravado cinco anos antes, quando ele era um moleque. Quando chegou a público, Justin ficou muito constrangido e pediu desculpas. A imprensa caiu matando, provavelmente alguns amigos se afastaram, mas o assunto morreu logo. Recentemente, o próprio Justin resgatou o tema, com um post no Instagram: “lute contra o racismo. Eu quero usar minha voz para lembrar que somos todos humanos e todos temos o mesmo valor aos olhos de Deus”. Não é bom que aquele garoto que falou “nigger” aos 15 anos hoje combata a discriminação étnica, aproveitando de sua popularidade e influência? Foi-lhe dada essa oportunidade. Ele poderia ter sido cancelado na época. Então tudo depende. Estamos dispostos a dar segundas chances? Se sim, a quem? A que tipo de erro? Se não, por quê?

Outro ponto que preciso levantar é o “resgate de tweets antigos”. É injusto e mal-intencionado cancelar alguém pelo que ela disse há cinco, seis, dez anos. A gente muda muito nesse tempo, obviamente. O que eu falei há tanto tempo atrás não vale hoje em dia. Deve haver pelo menos o benefício da dúvida. Ninguém vai passar pela vida sem cometer deslizes. Com a Internet, fica tudo registrado para a posteridade. Quem é esperto já apagou posts antigos ou contas inteiras e criou novas. Quem é bobo, uma hora terá que lidar com o passado jogado como bomba no presente. Eu não confio em quem vasculha posts de tantos anos atrás procurando bostas para ferrar alguém. É um deserviço. Só serve para criar alarde. Esse é meu ponto final: cuidado para não ser manipuladx. Você está cancelando um artista porque você decidiu assim (depois de se inteirar totalmente sobre o assunto) ou está cancelando só para seguir o efeito manada? É importante ter atenção para ver se um cancelamento, na verdade, não está servindo aos interesses de outra pessoa. Pode acontecer.

Para continuar o papo, me encontre no Instagram: @falaleonardo.

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