Entrevista: Silva fala sobre migração do indie para o mainstream, com álbum de regravações de Marisa Monte
Em 16/12/16 às 13:15 Por: Leonardo Torres | Entrevistas, Silva, Yeah! +POPLine

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Se “Júpiter”, lançado em 2015, já expandiu o público de Silva, o disco novo do cantor e compositor representa a chance de firmar de vez seu lugar no mainstream. “Silva Canta Marisa”, com releituras do repertório de Marisa Monte e uma canção inédita, escrita com ela, afasta o artista – definitivamente – do rótulo de indie. É um álbum que tem “Beija Eu”, “Não É Fácil” e “Ainda Lembro”: não dava para ser mais MPB.

Silva sabe disso, embora diga que não concebeu o disco com essa intenção. Aconteceu naturalmente. Um momento levou a outro, e quando ele viu estava no apartamento de Marisa, compondo, depois gravando um clipe, e fechando a tracklist. Neste sábado (17/12), o cantor faz o primeiro show com essas músicas, em São Paulo: os ingressos estão esgotados. Lembre-se que, no momento da publicação dessa entrevista (sim, o POPline conversou com ele!), Silva ainda tinha 171 mil curtidas em sua página no Facebook. Volte lá daqui a um ano, depois que essas músicas tocarem bastante nas rádios, em novelas e programas de TV, e constate a evolução. Porque é claro que os fãs vão se multiplicar.

Leia ouvindo “Noturna (Nada De Novo Na Noite)”, parceria de Silva e Marisa Monte:

POPLINE – Como surgiu a ideia para o álbum “Silva Canta Marisa”?
SILVA – A ideia do álbum veio de um programa que eu fiz no ano passado no BIS. Convidaram-me para cantar o repertório de alguém que eu gostasse, a minha escolha. Escolhi Marisa, porque sempre fui muito fã e, na época, estava ouvindo de novo bastante as coisas dela. Era uma hora de programa, então fiz 14 versões dela. Isso acabou virando um show, que fiz duas apresentações em São Paulo. A Marisa ficou sabendo disso, me mandou um e-mail dizendo que me acompanhava desde o começo e me chamando para nos conhecermos. Fui para o Rio e tivemos uma relação ótima. Já começamos a compor juntos…

Mas ainda não tinha surgido a ideia do álbum, né?
Não, ainda não. A gente chegou a compor três músicas juntos na época, eu acho, e ficamos empolgados, mas não sabíamos o que fazer com isso. Se eu ia gravar, se ela ia gravar, onde que isso ia entrar. Aí eu não quis deixar essas versões passarem em branco, porque foi um trabalho divertido de fazer. Eu escolhi as músicas da Marisa que eu mais gostava, então acabou virando esse disco, que tem essa inédita nossa também.

Antes de escolher esse título direto, você pensou em outros nomes?
Sim, pensei. Foi difícil escolher, e acho que até por isso ficamos com esse. Pensei em uma frase, alguma coisa de uma música dela, que combinasse com o som do álbum. Mas acabei escolhendo esse, e pedi a opinião dela, para saber o que ela achava. Ela achou ótimo.

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A Folha de S. Paulo escreveu que você “abraça de vez o som popular com esse álbum”. Concorda?
É engraçado isso. Eu nem pensei nisso. Não foi assim: “ah, agora abraçarei o som popular”. Foi uma coisa de momento mesmo. Eu sou muito fiel aos meus momentos. Não fico pensando “ah, vou fazer uma coisa assim, para ganhar um público”. Era uma coisa que eu realmente estava a fim de fazer. Eu fiz no meio da minha turnê, então deu muito trabalho, mas foi muito divertido ao mesmo tempo. Foi muito prazeroso.

Nessa entrevista para o jornal, você falou que é muito preguiçoso. Um álbum de regravações foi mais fácil de fazer?
Na verdade, nem sei. Acho que o que me salva é o lance de tocar muitos instrumentos. Isso me ajuda a produzir muito rápido. Meu processo de composição que é mais preguiçoso, porque dá muito trabalho e sou muito chato com as ideias. Nunca acho que está bom o bastante. Começo com uma ideia e penso “não está tão legal”, daí deixo pra lá. Mas, como é um disco de regravação, que as composições já estão prontas, fico só com a parte divertida, que é pegar as músicas que gosto e colocar uma roupa diferente nelas. Deu menos trabalho que um álbum autoral, mas ao mesmo tempo deu muito trabalho por ser um álbum muito orgânico. Geralmente, produzo muita coisa eletrônica, então está tudo ali na minha mão, em casa, produzindo. Esse foi um disco todo gravado em estúdio: bateria, baixo… então eu dependia de músicos para tocarem comigo. Teve esse trabalho.

E na escolha do repertório? Deixou muita coisa de fora?
Várias, várias! Se eu fosse escolher realmente tudo que queria, teria que ser um disco duplo talvez. Mas encareceria muito o projeto, poderia ficar inviável de alguma forma. Acabei fazendo umas 17 versões no total, e escolhi as 11 que achei que ficaram mais bonitas, que combinavam mais com a minha voz, com meu tom, com arranjos mais interessantes.

Seus álbuns anteriores sempre foram autorais. Como você enxerga essa ideia de regravação?
Os artistas brasileiros que amo, que sou fã, tipo Gal [Costa], [Maria] Bethânia, sempre cantaram outras pessoas. Eu acabei sentindo um pouco de falta disso. Meu show sempre foi muito autoral. Tinha uma versão ou outra, mas era quase 100% autoral. Depois de três discos, achei que seria legal uma coisa diferente, cantar outro repertório. Divertido, também. Dá uma pausa, um pouco. Você cantar só suas próprias músicas fica um pouco enjoativo, eu acho. Está sendo bem divertido, mesmo.

Um álbum inteiro cantando Marisa levanta algumas questões: dá para alcançar um público novo, aumentar a base de fãs, aumentar o número de shows, colocar música em novela, tocar mais nas rádios… Você falou que não pensa nessas estratégias, mas tem intenção de se tornar mais mainstream?
É… Essa é uma coisa muito louca, porque eu não sei… Não sei se tenho essa intenção… Para isso, rola todo um jogo, que não sei se tenho muito talento para jogar (risos). Vai muito além de música. Tem muito mais a ver com você ser um entertainer do que um músico, um artista. Não sei… Se for preciso fazer música e se esforçar com a música para jogar esse jogo, tudo bem, tô dentro. Mas se for preciso deixar de ser você mesmo, não sei se tenho essa capacidade. Não é uma coisa que eu pense tanto. Se rolar, ótimo. Se mais pessoas conhecerem e quiserem ouvir, fico feliz. Não tenho esse purismo indie de “quanto menos pessoas gostarem, melhor”. Essa coisa, não tenho mesmo.

Seus fãs têm esse purismo?
Tenho visto ambas as reações. Tem pessoas que me seguem desde lá do começo, na minha fase indie mega, master, ultra, e que ficam um pouco com ciúmes mesmo de mais pessoas ficarem conhecendo e gostando do trabalho. Mas, depois de “Júpiter”, que foi um disco mais direto, com uma abordagem mais direta ao ponto, eu vi que o público ficou mais diversificado, com pessoas de várias idades, vários tipos. Era uma coisa que não tinha tanto antes. Eu via que era um nicho antes, uma galera com um jeito específico. Agora já ficou mais misturado, e vejo essa galera do começo meio que reclamando. “Ai, gostava do Silva quando ninguém conhecia”. Mas faz parte. Eu já fui assim com algumas bandas também, então entendo como é isso.

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E, como fã, como foi conhecer a Marisa Monte na casa dela?
Fiquei supereufórico. Foi uma coisa incrível. É uma coisa minha: tenho receio de conhecer pessoas que gosto muito e ficar um pouco decepcionado, sabe? Você ama a música da pessoa, a conhece e fica tipo “pô, ela nem é legal como a música dela”. Com a Marisa, foi o contrário. Eu conheci e fiquei apaixonado pela pessoa que ela é. Descobri que temos várias coisas em comum. E ela descontrói muito essa imagem de diva que ela tem. Em dois minutos, você já está super à vontade com ela. Foi uma experiência incrível que vou guardar para a vida.

E teve a gravação do clipe também, né?
Aham. Foi na casa dela também. Ela tem um estúdio lá, que inclusive foi o mesmo onde gravaram os Tribalistas. Foi uma delícia. Era um ambiente superaconchegante, sem aquela frieza de um estúdio convencional, com hora marcada. Foi supertranquilo, a gente gravava, parava, voltava, a hora que quisesse.

E essas duas músicas que vocês fizeram juntos e não entraram nesse álbum?
Pois é, não sei o que vai ser feito delas: se a Marisa gravaria no próximo disco dela… Eu acharia ótimo se isso acontecesse. Mas não sei. Não temos planos. Tá guardado ali para a hora certa.

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Você tem planos para um álbum de inéditas em seguida?
Tenho, tenho. Eu sempre vou guardando ideias. Eu antes era um pouquinho relaxado com isso, e perdia muitas ideias boas. Fiquei mais cuidadoso com isso neste ano, mas eu mudo muito de tempos em tempos, então não sei se vou aproveitar essas ideias. Quero fazer com bastante calma, porque já lancei muita coisa em quatro anos. Assinei contrato com a gravadora em 2012 e até aqui já são quatro discos. Agora vou tocar mais e deixar as coisas fluírem no tempo delas.

Então vai demorar ainda, né?
Eu acredito que sim. Mas pode ser que não, que venha uma ideia incrível, uma música atrás da outra. Essas coisas de criatividade não dão para programar muito. Vamos ver.

Você já está montando o show com esse repertório da Marisa?
Já. Eu nem esperava que iria rolar um show tão próximo do lançamento do álbum, mas já temos um marcado para o dia 17 de dezembro no Sesc Pompeia, em São Paulo. Já estou trabalhando nisso, e está sendo ótimo, uma correria boa.

Serão só as músicas do álbum ou adicionará outras na turnê?
Vou adicionar outras e, inclusive, já até escolhi. São de fases da Marisa bem interessantes, coisas que ela nunca gravou em álbum. Acho que vai ser legal.

Músicas suas, não?
Não. Eu acho que não. Pode ser que agora nessa fase de ensaio e preparação de show surja alguma ideia, mas a princípio não.

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